Por Bruno Leonel

Acontece nesta sexta-feira (25) em Londrina o Sarau Carla Diacov dedicado à obra e trajetória da escritora nascida em São Bernardo do Campo, e com raízes em Londrina. Diacov é formada em teatro na primeira turma da Escola Municipal de Londrina, participou da montagem ‘Alice Através do Espelho’, no papel do Chapeleiro Maluco. Foi também uma das fundadoras do TOU (Teatro Obrigatório Universal) ao lado da atriz e produtora Camila Fontes. O evento terá início às 21h e tem entrada gratuita.

Com raízes artísticas em Londrina, Carla Diacov atualmente reside no litoral de SP - Foto: Divulgação
Com raízes artísticas em Londrina, Carla Diacov atualmente reside no litoral de SP – Foto: Divulgação

Carla dirigiu e atuou em montagens como o monólogo “A Valsa Número Seis’, de Nelson Rodrigues e ‘A Mais Forte’ de Johan A. Strindberg. Neste ano publicou dois livros de poesia: Ninguém vai poder dizer que eu não disse, pela editora Douda Correria (Portugal) e A metáfora mais gentil do mundo, pela Edições Macondo, de Juiz de Fora. Além desses, Carla prepara dois novos lançamento para 2017, também de poesia.

Possuidora de uma veia artística bastante rica e criativa – Que eventualmente flerta com o experimental e também com linguagens contemporâneas de arte – Carla hoje usa a literatura e as artes visuais como forma de expressão. A autora mantem um blog e uma página no Tumblr, a partir de onde, surgiram alguns dos trabalhos que resultaram na publicação de seus livros no Brasil e Portugal.
Trabalho de Carla Diacov é tema de sarau em Londrina

Por meio da internet, Carla foi convidada por Nuno Moura a publicar seu primeiro livro de poemas, Amanhã Alguém Morre no Samba, pela editora Douda Correria, de Lisboa, em 2015. Com a boa repercussão do primeiro livro, Carla acabou por publicar mais dois livros em 2016. O Sarau Carla Diacov, que é organizado pelo Gaia Coletivo de Londrina, será uma celebração à autora, e surgiu por volta de junho com a ideia de um curta-documentário sobre a obra da artista. O projeto envolveu um extenso período de pesquisa e levantamento de material, que por fim, deram origem ao sarau. Devido à questões de saúde da autora. Atualmente ela encontra-se afastada dos palcos, vivendo no litoral de SP.

A poeta não estará presente no evento de sexta, mas, por e-mail conversou com a reportagem do Rubrosom onde contou mais sobre seus trabalhos e um pouco de suas ideias artísticas. Confira:

(R)O Sarau desta sexta, além da exposição dos trabalhos, tem um conceito todo que dialoga muito com a coisa da feminilidade ligada à poesia e às artes… sempre foi intencional essa vertente nos seus trabalhos, ou foi algo que você ‘assumiu’ mais com o passar dos anos?
Carla: A feminilidade e temas feministas vieram com o corpo. então entender o que é e como funciona é uma alameda ora cruzada, ora paralela com as artes. tudo acontece de forma absolutamente orgânica, mas realmente, perceber e dar nome aos bois de dentro (minhas vacas?) é muito recente e ainda em andamento. ter por perto a voz de contemporâneas como Micheliny Verunschk, Julia Debasse, Angélica Freitas, Nina Rizzi, Érica Zíngano, Bruna Mitrano, Adelaide Ivánova, Ana Cristina Joaquim, Anelise Freitas, Maira Parula, Júlia De Carvalho Hansen, Giovanna Dealtry, Tatiana Faia, Susana Souto e tantas mais, ter contato com muitas delas, ler ali (facebook e etc) o imediato da postura dessas mulheres, suas peculiaridades, isso tanto é TAMBÉM manter em movimento a feminilidade e continuar a entender e me fazer entendida como uma mulher que escreve, é sustança para os dias que seguem ainda tão machos. e, claro, sempre voltar ao colo e aos tabefes de Hilda Hilst, Frida, Beauvoir, Pagú, Gertrude, Atwood, Rich, Malvina Reynolds, Gerda, Woolf, Maya Angelou, Elza, …

Sobre os trabalhos que serão trazidos para o Sarau, foram feitos em que período? Há textos e fotos de fases artísticas muito distintas?
O primeiro livro (amanhã alguém morre no samba – douda correria, 2015) apresenta um compilado de “idades”, digamos. nele há alguns poemas de 2010 e daí aos dias de 2015. o segundo livro pela douda (ninguém vai poder dizer que eu não disse I) é um apanhado de pequenos poemas proseados, desabafos e desaforos poéticos que eu espargia pelo meu antigo perfil do facebook. o livro com a Macondo (a metáfora mais gentil do mundo gentil) coloca o banheiro como coração e fígado da casa, nele me exponho em absoluto.

Não há muito tempo entre um livro e outro. comecei a escrever na transição do teatro e de uma vida que ainda não tinha rumo. meu primeiro blogue é de 2005. minha escrita é muito recente. afora o teatro (como atriz e diretora), não vejo fases. talvez sentidos e formatos distintos. ainda não tive tempo para fases na escrita e nas outras formas por onde me faço dialogar.

Você tem formação do teatro, mas seu trabalho dialoga bastante com outras artes – poesia, performance, visuais – desde sempre você teve interesse em unir referências diferentes nas suas produções? Tem algum artista que te influenciou pessoalmente a fazer esse cruzamento?
Começar pelo teatro fez esse caminho até aqui. sou uma leitora apaixonada por dramaturgia e ler teatro faz mover as engrenagens, vibra tudo, põe rodinhas no desejo. enquanto diretora e atriz fiz uso dos meus sonhos. sonhei cenários e figurinos, sonhei peças completas. isso me levou a conhecer melhor os sonhos, meus mecanismos de sonhar, fiz/faço experimentos com o sonho e que me trazem abundâncias no que cometo como poesia e em outros “canais”. Heiner Muller me inspira muito desde o teatro. Karl Valentin e alguns cineastas como Spike Jonze, Jim Jarmusch, Tarkovski (também o pai poeta), Sokurov, Béla Tarr, Agnes Hranitzky, Godard… me encantam as “costuras” de Rodrigo Garcia.

Pessoalmente tive a honra de conhecer e estar, por pouco tempo, mas estar íntima de Francelino França, jornalista da Folha de Londrina por anos. com ele tive conversas maravilhosas sobre diversas artes, sobre técnicas e experiências com o sonho, práticas de variadas fontes aplicadas ao teatro e à escrita. Francelino me ensina até hoje.

Seu nome Carla, está ligado à fundação do TOU em Londrina (Junto com Camila Fontes) ocorrida em uma época de muita produção cultural na cidade… Mesmo com todas as dificuldades daquela época, o que você acha que possibilitou o surgimento de tantos projetos na cidade? Havia talvez mais vontade e intensidade por parte dos artistas?

Havia e há. sou da primeira turma da Escola Municipal de Teatro, fruto da FUNCART que também mantém o Ballet de Londrina e promove eventos maravilhosos. morava aí quando nasceu o curso de artes cênicas da UEL, o FILO sempre foi um grande gancho a ser artista. O teatro do Mário Bortolotto (dramaturgia e montagens) me valeu/me vale a descomplicar para amplificar o que interessa. A Camila Fontes e a Thais D’Abronzo tocam o grupo TOU com excelência. Vejo coletivos (Casa Madá), bandas, grupos como o ÁS DE PAUS agitando a cultura aí. O MARL (Movimento dos Artistas de Rua de Londrina), que ocupou o antigo prédio da ULES, Alex Lima e Fábio José entre esses artistas. A própria Christine Vianna com o Londrix e as tantas produções que ela põe a marchar desde as primeiras montagens do Bortolotto. a Usina Cultural, os meninos e meninas do cinema (Rodrigo Grota, Roberta Takamatsu, Letícia Nascimento), o festival Kinoarte… me parece que a vontade e intensidade persistem… Daqui vejo só crescimento. talvez num direcionamento mais independente, mas aí está, vasta e vária, a constante produção cultural em Londrina.

Na época do teatro, chegou a escrever alguma peça? O trabalho chegou a ser encenado (Em londrina ou outro espaço).
Não exatamente. eu e Camila Fontes montamos e estreamos o Ooooooh!, que era uma colagem de exercícios nossos, ou seja, nossa dramaturgia e nascida ali, da partitura corporal das propostas. tenho “na gaveta” pequenas peças minhas. gosto desse exercício e dele tiro grande proveito. não pretendo montar essas peças. posso dizer que são para consumo próprio e que talvez haja uma publicação engatilhada.

Você lançou 1 livro em 2015 (Amanhã Alguém Morre no Samba) e mais 2 livros em 2016 – ‘Ninguém vai poder dizer que eu não disse’ e ‘A metáfora mais gentil do mundo’ – e planeja já (Dois trabalhos) para 2017, tem sido uma fase produtiva e tanto… Como é seu processo de escrita? Costuma seguir uma rotina ou segue um processo menos ‘disciplinado’? O que te inspira a escrever hoje?
Pois então… esses três primeiros livros surgiram de convites. os dois para 2017 são propostas minhas para duas editoras. estão prontos, prefaciados e tudo o mais. Sigo um fluxo íntimo. tenho dias de branco e aprendi a contornar isso ou a não sofrer tanto com. Minha rotina é estar para o dia… Mencionei bastante o facebook aqui.  leio muito do que é produzido ao instantâneo dos dias. A internet é minha fonte primeira. aqui faço meus estudos, exercícios, invenções, laboratórios…

Sou indisciplinada por escolha dentro de uma disciplina maleável. tenho meus rituais diagnosticados (TOC) e outros que posso inventar para agora ou para amanhã. costumo usar a repetição (de toda forma) como ponto de partida para começar um livro ou um poema apenas. trabalho melhor com temas sugeridos; está para sair em Portugal o mais novo número de um periódico muito bacana chamado FlanZine. participo da revista pela terceira vez e o João Pedro Azul (editor da revista) produz esses números sempre com um tema fixo.

O cotidiano que produzo costuma fazer os temas não sugeridos. explico: não saio de casa há mais de dois anos. faço tratamento para fobias, S. do Pânico, depressão e TOC. quando digo “o cotidiano que produzo” quero dizer que, como não saio de casa, tive de redecorar a vida. o claustro é o que eu tenho, então isso aqui tem de ser minimamente respirável, minimamente divertido, minimamente aterrorizante, minimamente dadaísta, … a vida acontece em modos e módulos que eu construo conforme o meu humor.

Seu livro de 2015 foi publicado antes em Portugal (Pela editora Douda Correria), como teve esse contato com a editora? Você tem contato (Ou acompanha o trabalho) de outros autores de poesia de lá?
O Nuno Moura é o editor da Douda Correria e da Mia Soave (editora e selo musical) e foi ele quem me convidou a fazer os livros com a Douda. Nuno é escritor, editor, produtor e movimentador compulsivo da cultura portuguesa (ADORÁVEL DOUDO!).

através do primeiro livro conheci escritores(as) maravilhosos… Raquel Nobre Guerra, Rosalina Marshall, Cláudia R. Sampaio, Ana Tecedeiro, Paola D’agostinho entre outrxs que já conhecia por acompanhar blogues portugueses, revistas on-line… a produção portuguesa é extremamente interessante, vasta e linda. Sou constantemente encantada pela poética de António Cabrita, de Hugo Milhanas Machado e de Inês Dias.

Hoje em dia, você tem o costume de acompanhar coisas atuais de arte e literatura? Das novas gerações tem algum artista ou escritor que te chamou a atenção? Tem algo que te influencia que, talvez, as pessoas jamais imaginariam?
Acompanho tudo que posso. há uma geração que me influencia diretamente e não só na escrita… muitos artistas das levas de 80 e 90 (nascidos entre e nesses anos) me fazem repensar atitudes, acalmar o ânimo, olhar outros pontos… a pareidolia e a sinestesia (minha e dos outros) me influenciam, mas acho que isso não é segredo.

A nomeação do Bob Dylan para o Nobel da Literatura, neste ano, foi um dos temas desse meio, talvez, que mais repercutiu fora da academia e dos espaços literários… Você acha positivo uma figura como ele (Que não é exclusivamente das letras) ter ganhado essa projeção em um nicho tão específico?
Acho que o nobel nunca foi tão feliz e certeiro. Bob Dylan, Björk, Leonard Cohen, Tom Waits e tantos outros devem ser lidos. quem discursa contra, quem grita que essa produção EXTRAORDINÁRIA não é literatura fica no prejuízo e quanto a isso não há o que fazer. podemos rir. não é sarcasmo. é preferência. prefiro a risada. lamentar não move.

Você se considera uma pessoa nostálgica Carla? Do tipo que revê trabalhos antigos, velhas fases artísticas, ou pensa sempre mais nos próximos projetos?
Eu olho para trás! e gosto. talvez nostalgia não seja o sentimento. tenho carinho e procuro conservar meus pilares. de tempos em tempos faço outros novos…  sigo pulando e também de tempos em tempos volto aos pilares onde deixei de ver algum matinho ou musgo que nasceu ali e irá ambientar outros mais. vivo revisitando o passado, encontrando novos encaixes com o agora.


SERVIÇO
Londrix Apresenta Sarau Carla Diacov
Leituras de poemas, exposição de fotos e obras da artista, além de discotecagem com as DJs Analua Ito, Silvia de Luca e Empório da Keiko
Onde: Cemitério de Automóveis – Rua João Pessoa, 103
Horário: 21h
(Entrada Franca)

Patrocínio do Festival Literário de Londrina – Londrix: PROMIC/MINISTÉRIO DA CULTURA/BIBLIOTECA NACIONAL
Apoio: GOVERNO DO ESTADO DO PARANÁ/SETI, UEL/PROEX, FUNDAÇÃO ARAUCÁRIA Parceria: CULTURAL, RPC TV