Música – Sesi ficou pequeno para os grandes shows do 4º Palco Alma

Clima de chuva, que acabou não se confirmando, shows intimistas e performances bem enérgicas; Assim foi o saldo da 4ª e última edição do Palco Alma realizada no último sábado. Em pleno dia 10 de dezembro, aniversário da cidade, no auditório do Sesi/Aml, na Praça 1º de Maio, em Londrina. O evento estava previsto para ocorrer na Concha Acústica, mas, devido a previsão do (mau) tempo, com expectativa de chuva, acabou sendo transferido para o espaço do Sesi, parceiro da Alma Londrina Rádio Web na realização do evento, através do projeto Sesi Música que trouxe Mundo Livre S/A para o line composto também pelas londrinenses Gold Soundz, Vulgar Gods e pela paulista Inky. O evento conta com o apoio do Programa Municipal de Incentivo á Cultura (PROMIC).

Evento iniciou por volta das 16h do último sábado (10) - Foto: Bruno Leonel
Evento iniciou por volta das 16h do último sábado (10) – Foto: Bruno Leonel

Em matéria de organização e espaço, o evento foi impecável. O ambiente intimista e com boa acústica do auditório do Sesi contribuíram para a qualidade dos bons shows. O único ponto falho talvez foi a (baixa) capacidade do local (Com espaço para pouco mais de 120 pessoas) o que, infelizmente, fez com que muitos presentes ficassem de fora para o show do Mundo Livre S/A – Única apresentação da noite para a qual era necessário reservar ingressos com antecedência, sendo liberados já a partir das 17h. Em cerca de 20 minutos, todos os ingressos disponíveis já haviam sido entregues. Houve ainda uma lista de espera para o caso de sobrar espaço no local durante o show – Alguns (poucos) sortudos ainda conseguiram entrar.

Espaço do sesi valorizou shows e qualidade sonora apesar do pouco espaço - Foto: Bruno Leonel/Rubrosom
Espaço do sesi valorizou shows e qualidade sonora apesar do pouco espaço – Foto: Bruno Leonel/Rubrosom

Os trabalhos iniciaram por volta das 16h com o som do residente Dj Diq, já figura fixa de outras edições do Palco Alma com seu set cheio de groove colagens sonoras que passam pela black music, funk clássicos e muitos outros gêneros. Por volta das 17h40, o trio de rock Gold Soundz iniciou a sequência de shows do dia. Com uma formação inusitada – Duas guitarras, baixo e uma bateria eletrônica pré-programada – o trio fez um show envolvente com seu rock instrumental calcado em efeitos, texturas e mudanças de dinâmicas. A apresentação curta (Menos de meia hora) e intensa quase passou batida por grande parte do público que ainda aguardava para o lado de fora do Sesi, infelizmente. Foi a terceira apresentação da banda formada em 2013 e que tem como integrantes JM, Luiz Crozera e Thiago Terror (Que também é integrante da Alma Londrina). Com um som cheio de camadas e écos de post-rock o trio abriu com originalidade os shows do evento.

Gold Soundz em ação no 4º Palco Alma - Foto: Bruno Leonel/Rubrosom
Gold Soundz em ação no 4º Palco Alma – Foto: Bruno Leonel/Rubrosom

Se apresentando novamente como um quarteto (Como eram mesmo há alguns anos) o segundo show da noite ficou por conta do Vulgar Gods de Londrina. O grupo tocou com a formação desfalcada – O baterista Gabriel e o guitarrista/vocal Guilherme Hoewell atualmente estão em turnê com o Valeries nos Estados Unidos. Mesmo sem dois integrantes o grupo fez uma (típica) apresentação enérgica, com direito a vocalista Suyanne assumindo também a segunda guitarra em algumas faixas, e também, o baterista Vitor Delalio (Mescalha/Base 2) segurando as baquetas e backing vocals do grupo. Números mais pesados do primeiro disco do ‘Vulgar’ como Money Stalkers e Nowhere ditaram o tom curto e grosso (No bom sentido) da apresentação no Sesi.

A vocalista Suy Correia Bernardi assumindo também as 6 cordas durante show do Vulgar Gods - Foto: Bruno Leonel/Rubrosom
A vocalista Suy Correia Bernardi  assumindo também as 6 cordas durante show do Vulgar Gods, ao lado a baixista Mariana Franco  – Foto: Bruno Leonel/Rubrosom

Conforme a programação avançava, a presença do público também aumentou no local. No fim do show do Vulgar Gods, a casa estava com quase 90% da capacidade. A iluminação especial e o clima intimista só prepararam o terreno para a avalanche sonora que, alguns, imaginaram que veriam em seguida, e viram! Com um som pesado, e carregado de camadas eletrônicas, o quarteto Inky de São Paulo fez uma das apresentações mais intensas da noite. Com uma cozinha competente, o grupo tem a frente a vocalista/tecladista Luiza Pereira. Oscilando momentos de calmaria e vocais mais extremos a cantora – Amparada também por um sintetizador moog, que contribuiu para o clima sofisticado do som – chamou a atenção pela performance intensa. Boas letras cantadas em inglês e ecos de nomes como Bjork e até Garbage. O criativo guitarrista Stephan Feitsma é outro dos destaques do quarteto, usando diversos efeitos e sons ‘espaciais’ completa o mosaico sonoro do grupo sem soar nada óbvio – E sim, um dos guitarristas brasileiros da atualidade pra ficar de olho. O repertório foi baseado nos dois trabalhos do grupo Primal Swag (2014) e Animania (2016), tocaram até a faixa Devil’s Mark, feita em parceria com o pessoal do Bixiga 70.

Inky de SP fez uma apresentação climática e densa durante o 4º Palco Alma - Foto: Bruno Leonel/Rubrosom
Inky de SP fez uma apresentação climática e densa durante o 4º Palco Alma – Foto: Bruno Leonel/Rubrosom

Nocaute sonoro com o show do Inky que quase encerrou os trabalhos da noite. Quase… Porque ainda havia o show do Mundo Livre S/A para concluir a noite de boa música na cidade. Após o término do show do Inky, a plateia se retirou do espaço por cerca de 40 minutos enquanto o quarteto nordestino preparava o palco. Pouco mais de 120 sortudos lotaram o auditório do Sesi e (não) ficaram parados ao som de cada acorde e música tocada por Fred 04 e sua trupe de peso. Uma pena que um show tão importante, infelizmente, não pudesse ter sido visto por mais pessoas.

Casa lotada para o show do Mundo Livre S/A em Londrina - Foto: Bruno Leonel/Rubrosom
Casa lotada para o show do Mundo Livre S/A em Londrina – Foto: Bruno Leonel/Rubrosom

O repertório passou por diversos clássicos da extensa trajetória do grupo. Tocaram até faixas do disco mais recente do grupo ‘Novas Lendas da Etnia Toshi Babaa’ (2011). Clássicos do quinteto como ‘Musa da Ilha Grande‘ e ‘Meu Esquema’ foram cantadas em coro pela platéia bastante entusiasmada com o show. Algo semelhante ocorreu no show do Metá Metá em Londrina, em 2015, no mesmo local, quando novamente apenas um grupo seleto de pessoas pode presenciar um dos grandes shows do ano na cidade.

Show do Mundo Livre S/A em Londrina iniciou pouco após as 21h - Foto: Bruno Leonel/Rubrosom
Show do Mundo Livre S/A em Londrina iniciou pouco após as 21h – Foto: Bruno Leonel/Rubrosom

Ao longo de quatro edições – Confira mais AQUI – o Palco Alma, apesar de recente, já se estabelece a cada nova edição como um importante evento para a programação cultural da cidade, possibilitando a preços acessíveis, a vinda de nomes ecléticos, de relativo destaque nacional e também, com  uma programação cultural que foge do óbvio. Apesar das dificuldades – Shows como o do Mundo Livre por exemplo que certamente funcionariam melhor em espaços maiores – a 4ª edição do Palco foi notável pela qualidade das bandas que preencheram (E até inundaram) o espaço do Sesi. Seja prestigiando a música brasileira, o rock e até a música alternativa, pouco a pouco, o festival se estabelece como referência na região junto à outros eventos notórios da cidade dedicados á música autoral – Demosul, Festival Alternativo Para quem foi fica a lembrança dos bons shows e das surpresas do ‘lineup’ e para quem não foi… Resta aguardar os próximos.

Entrevista – A nova fase do Vulgar Gods

Com pouco mais de quatro anos de existência, um EP e um álbum completo na bagagem, além de diversos shows no circuito independente da região (Dentro e fora da cidade inclusive) o quinteto Londrinense ‘Vulgar Gods’ trás já em sua trajetória uma serie de superação de desafios. Seja em relação à trocas de integrantes (Que diversas bandas enfrentam) ou com as dificuldades de sobreviver como artista autoral – Em uma época na qual o público é mais preocupado em reconhecer impressões do que conhecer coisas novas – O grupo havia lançado no último mês de outubro seu primeiro disco, o bom ‘Queen of Sound’(Independente).

O Vulgar Gods em 2016 da esquerda para a direita: Vinícius Carneiro Gouveia (Em pé), Gabriel Pelegrino (De preto no sofá), Suy Correia Bernardi (No meio), Thiago Ruas (Em pé do lado direito) e Guilherme Hoewell.
O Vulgar Gods em 2016 da esquerda para a direita: Vinícius Carneiro Gouveia (Em pé), Gabriel Pelegrino (De preto no sofá), Suy Correia Bernardi (No meio), Thiago Ruas (Em pé do lado direito) e Guilherme Hoewell.

O grupo vinha em um ritmo bastante ativo de shows e divulgação (Chegaram a abrir pra bandas importantes da atualidade como o ‘Far From Alaska’) e mais recentemente passaram por uma mudança de vocalista. Saiu a cantora Thaís Vicente (Que já tocava com a banda desde 2014, e quem gravou o disco) e entrou em seu lugar Suy Correia Bernardi (do Honey Bee, e que já tem também uma trajetória a parte tocando em várias bandas e projetos londrinenses, talvez sendo o Beatrice o mais notório deles).

O RubroSom conversou com o pessoal do Vulgar Gods sobre a atual fase da banda, assim como as mudanças recentes pelas quais o grupo passou.

Como aconteceu a entrada da Suy na banda?
Vinícius – A Suy foi nossa primeira opção para entrar como vocalista na banda. Eu já a conhecia dos outros projetos (Como a ‘Honey Bee’) nós fizemos um contato com ela e ela falou que estava interessada em entrar na banda, de cabeça mesmo, e fazer o que nós já estávamos buscando fazer. E, dessa forma, tentar levar isso um pouco mais à frente. Tentar sair um pouco do cenário Londrina – Que as vezes é meio torturante – E Seguir com a banda. É o que a gente mais quer no momento…

Suy, você já conhecia a banda, já tinha ido há alguns shows, como é fazer parte disso agora ?
Suy – Já sim. Eu já conhecia. Eu era fã da banda, eu sou ainda… Conhecia tanto o estilo da banda, como também, as músicas do álbum deles, até já sabia cantar algumas coisas também. Sempre gostei muito do som.

Após essa mudança de vocalista, muita adaptação nas músicas está sendo feita? Questões como os detalhes de cada faixa, mudar a afinação…
Guilherme – A Suy tem um timbre bem diferente da voz, ela canta mais na região do grave… Agora a gente ta usando algumas afinações mais baixas, fazendo alguns testes e ajustes. No geral estamos bem livres em relação a isso. Estamos abertos a mexer nas músicas e mudar mesmo sem rigidez para obedecer apenas o que foi feito nas gravações. E tá dando certo, não estamos perdendo identidade e estamos colocando essa ‘impressão digital’ da nova vocalista nas faixas.

Vinícius – Nós tínhamos um show marcado agora para o mês de abril na Concha Acústica, seria parte do ‘Palco Alma’, mas devido a uma questão de prazos com os apoiadores, parece que o show vai ser adiado por um tempo ainda. Deve ficar agora para o segundo semestre… Mais recentemente agora gravamos um clipe (da faixa ‘Rest in Peace’).

Thiago – Sem previsão ainda pra lançar, foi feito com roteiro do Felipe Pauluk e gravado no estúdio 240 do Ber Sardi. Vamos ver como foi o resultado, foi cansativo mas foi divertido de fazer, ficamos um dia todo gravando, um domingo todo fazendo.

E os próximos projetos da banda, tem trabalhado já em futuras faixas?
Thiago – A gente tem bastantes ideias, temos feito algumas melodias, mas, a gente tá mais preocupado agora em montar de novo o que já está feito. Temos uma faixa nova que está caminhando, tem sido divertido toca-lá, mas nada novo ‘pronto’ por agora.

Guilherme – Acho que é isso, temos algumas ideias que temos trabalhado também. O principal é trabalhar junto, a relação entre a banda tem sido muito positiva, estamos todos nos conhecendo, trocando agora referências de som com a Suy, discutindo o que cada um gostaria de falar nas músicas e esse tipo de coisa…

Suy – Essa é a intenção. Eu pelo menos se não estiver apegada com as pessoas que estão à minha volta, não tem a mesma fluência sabe? Se você tem mais liberdade para trabalhar com as pessoas a coisa toda caminha melhor. O negócio agora é ir para frente com o projeto, fazer mais shows, apresentar o som da banda em outros locais….

Falando especialmente de você Suy…. Você é também vocalista do Honey Bee, tocou já com várias outras bandas aqui de Londrina. No ‘Vulgar Gods’ o trabalho ficou muito diferente do que você já fazia em outros projetos seus, exigiu muita adaptação ?
Suy – É muito diferente sim, inclusive, eu tinha uma certa ‘trava’ com a minha própria voz, com eles, por mais que minha voz seja diferente, mais grave, esse grave ainda é mais alto em comparação ao tom em que eu costumo cantar. Eu sempre quis tocar em uma banda de rock que tivesse essa coisa legal, dos integrantes serem ligados uns aos outros. Eu vejo que no Vulgar Gods tem muito isso, e é uma coisa muito importante para mim… To meio que ‘quebrando’ algumas coisas comigo mesmo ainda, é um processo muito louco, acho que é crescimento, tanto pra mim como pra banda.

Thiago – A gente conversou hoje sobre isso. Trocar vocalista é um negócio complicado, pela coisa de mudar tom das músicas por exemplo.  Aí a gente lembra de várias bandas de Londrina que já mudaram bastante de vocalista; O Mescalha por exemplo trocou de vocalistas três vezes, teve o Hocus Pocus que já mudou também…. No nosso caso, procurar alguém que cantasse igual á Thaís (Antiga vocalista) não ia acrescentar em nada.

A ideia é apresentar variabilidade e poder acrescentar algo com isso. Se fosse o caso, a gente acharia alguém que cantasse igual à antiga vocalista mas, ai não é legal, começa a virar uma reprodução do mesmo toda hora. O lance é experimentar, ver o que soa mais legal para a banda… O que estamos vendo por agora é que ta virando uma coisa mais pesada do que era até então, o que é ótimo (Risos). No nosso próprio disco a gente gravou músicas em tons diferentes. Algumas músicas agora estamos tocando ao vivo no mesmo tom em que já havia sido feita a gravação. Antes a gente usava afinação convencional mesmo porque não rolava levar vários instrumentos diferentes pro show, e essas coisas….


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