Luv Urself – Projeto fotográfico busca retratar a beleza feminina

Projeto fotográfico que busca retratar a beleza feminina, eventualmente subvertendo certos padrões estéticos, e com a ideia de explorar um olhar mais intimista e pessoal, não raramente usando casas comuns e quartos como cenário para os ensaios. É mais ou menos essa a ideia do projeto londrinense Luv Urself que, na ativa há cerca de 6 meses, tem buscado explorar novas linguagens fotográficas através de um olhar mais pessoal e fora de certos padrões estigmatizados neste tipo de trabalho.

Foto: Acervo Luv Urself/César Segundinho
Foto: Acervo Luv Urself/César Segundinho

O projeto é resultado do trabalho conjunto de Cesar Segundinho (Fotografia) e Pamela Manoela (Direção), após acompanhar projetos relacionados, e que são feitos em outras cidades, a dupla decidiu produzir os próprios ensaios, buscando uma linguagem própria e chamando sempre pessoas que nunca haviam feito este tipo de trabalho (Veja a entrevista a seguir).  De acordo com Segundinho, Nenhum tipo de manipulação é usada nas fotos, de modo a manter uma releitura mais ‘real’ da coisa. Também não são utilizadas luzes artificiais, valorizando assim, tons suaves e a coloração mais sutil, encontrada nos ambientes onde as fotos são clicadas. “O projeto tem esse estilo chamado ‘boudoir’, que se resume a fotos em quatro paredes. Nada muito vulgar, mas com uma sensualidade mais intimista”, contou Segundinho à nossa reportagem.

Para os próximos passos, a dupla tem ideia de continuar a produção, e até, expandir discussões e estudos para pessoas interessadas em fotografia. O grupo tem já um workshop programado para acontecer na cidade em Julho, e ainda, propostas de realizar eventos parecidos em outras cidades. Temáticas como a parte técnica, e também, poética do trabalho serão discutidas nos dois eventos.

Recentemente o grupo realizou exposições durante eventos no Museu de Arte de Londrina, e ainda, na Casa Madá - Foto: Bruno Leonel/Rubrosom
Recentemente o grupo realizou exposições durante eventos no Museu de Arte de Londrina, e ainda, na Casa Madá – Foto: Bruno Leonel/Rubrosom

Como surgiu a ideia do projeto, você e a Pamela pensaram em fazer esse tipo de registro, tem a ideia de captar a beleza natural?
A ideia foi da Pamela, ela viu que eu acompanhava bastante este tipo de trabalho, eu via sempre ensaios, fotos deste tipo. Ai ela sugeriu que eu fizesse fotos assim (Eu já fotografava), e ela me deu ideias para que eu fosse atrás. Não é muito simples, até para conseguir pessoas que queiram fotografar, depois do visual tem o trabalho também com a produção da coisa. A ideia inicial foi da Pamela, e ela faz essa parte da direção, com ela junto, quem vem fotografar se sente mais a vontade também… Pensamos nessa coisa ‘fora do padrão’, há muitos ensaios que tem essa coisa da feminilidade, mas, retratando um certo ‘padrão’ de estereótipo das meninas, tudo muito sensual, algo as vezes até um pouco forçado.

Nossa ideia era fugir um pouco da regra com isso, fomos pensando em detalhes como, não usar manipulação de imagem, não usar manipulação de luz, sempre mantivemos iluminação natural, mantemos também um padrão de coloração nas fotos. Após isso, pensamos em fazer também fotos com pessoas que nunca haviam feito esse tipo de trabalho (Nunca haviam posado), chamamos o pessoal de ‘participante’ e não de modelo. Achamos muita gente pela internet, algumas pessoas indicam umas ás outras, e por ai vai.

E como vocês tem encontrado pessoas dispostas a participar?
O primeiro contato sou eu quem faço com as meninas, geralmente eu converso primeiro, porque eu sou quem fotografa também, a Pamela entende mais da parte da produção, do ambiente, a coisa de harmonizar a roupa certa com as fotos, e por ai…

Foto: Acervo Luv Urself/Cesar Segundinho
Foto: Acervo Luv Urself/César Segundinho

Falando nessa coisa de sair do padrão, tem uma preocupação em chamar meninas de estilos/perfis diferentes? Não necessariamente meninas que sejam parecidas, etc… 
Na verdade, a gente busca gente que aceite o projeto, ela veja que o projeto é algo novo, não pensamos muito no estilo em si da menina, gente que agregue ao projeto, e que tenha a ver, que nunca tenha feito nada profissionalmente neste tipo de projeto, é o que interessa. Não temos muito um estilo definido, ou algo visto como tipo ideal de beleza, nada assim…

Vocês tem preferência por espaços menores, locais como salas, como é essa referência pra vocês?
É, o projeto tem esse estilo chamado ‘boudoir’, que se resume a fotos em quatro paredes. Nada muito vulgar, mas com uma sensualidade mais intimista, sem mostrar mesmo o corpo da pessoa e talz. Estamos com o projeto agora do workshop e, para falar da forma como temos trabalhando.

A gente gosta do que temos feito, o projeto tem apenas 6 meses, mas, há anos eu tenho estudado já fotografia. O workshop vai ser realizado em Londrina, e tem sido legal, temos tido contato de pessoas entrando em contato e tudo mais. Não temos limite para participação, mas, a ideia é que todo mundo participe e evolua com a gente no projeto. Gostamos muito da forma como executamos o projeto e, tem sido bem gratificante.


Informações
Conheça mais sobre o projeto acompanhando a página Luv Urself

Entrevista – Evento relembra fotógrafo Haruo Ohara

A obra e trajetória do fotógrafo japonês Haruo Ohara (1909-1999) foi relembrada durante esta semana na Divisão de Artes Plásticas (DAP) da UEL durante a terceira edição do projeto Estação Londrina. Seu neto, o fotógrafo londrinense Saulo Ohara participou do evento, comentando e resgatando de uma forma didática imagens e algumas histórias do seu avô. Haruo Ohara é considerado um dos principais responsáveis pelo registro da colonização londrinense (Décadas de 1930 e 40).  Em sua obra, Ohara registrou mais de 20 mil imagens de Londrina e região, acervo que está presente desde 2008 no Instituto Moreira Salles – IMS no Rio de Janeiro.

Artistas, professores e interessados pela fotografia compareceram á terceira edição do Estação Londrina - Foto: Bruno Leonel
Artistas, professores e interessados pela fotografia compareceram á terceira edição do Estação Londrina – Foto: Bruno Leonel

Fotógrafo de profissão, Saulo carrega também algumas influências do avô… Seja no discurso ou no lado poético, talvez, uma das carácterísticas mais marcantes do avô (Falecido em 1999) . “Era uma obra sincera, não era algo forçada, não era uma ideia que empurrou para as pessoas…”, relatou Saulo. Em 2003, os escritores londrinenses Rogério Ivano e Marcos Losnak lançaram a biografia ‘Lavrador de Imagens’. Entre 2009 e 2010, o Instituto Moreira Salles – Rio de Janeiro realizou uma exposição com as obras do Haruo que percorreu cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Londrina. Neste ano, uma exposição com fotos do profissional foi montada no Museu de arte de Kochi (Japão). Saulo Ohara esteve na exposição e contou ao RubroSom um pouco do que viu por lá (Veja a seguir). Durante o evento, realizado na DAP em Londrina, houve uma projeção de várias imagens, de arquivo pessoal (Muitas do Instituto Moreira Salles). “Na verdade o que irei contar é uma coisa bem didática, uma história do haruo – pra quem não conhece, em Londrina mesmo muita gente o conhece… Sobre quem é o Haruo e como ele chegou onde ele está hoje, um dos grandes fotógrafos do Brasil e hoje com uma exposição no Japão… Será quase duas horas de aula”, contou Saulo à nossa reportagem. Aproveitando a realização do evento, conversamos com o Saulo, sobre a importância da obra de Haruo, assim como, a influência da obra no seu trabalho. Confira:

Você é fotógrafo também… É meio óbvia a referência que você tem do seu avô, mas na sua memória, você lembra de algo que te bateu um reconhecimento seu para a obra dele, você notou que ele era importante no que ele fazia?
Ah sim, com a gente ele nunca se posicionou como fotógrafo, era o meu avô… Quando eu tinha uns nove anos de idade eu ganhei uma câmera dele, ai, durante uma certa idade eu saía com ele para fotografar em Londrina (Morei até os 10 anos de idade no fundo da casa dele). Eu tive esse esse contato fotográfico direto mesmo, ainda criança, era uma coisa bem lúdica… O prazer de fotografar, eu sei que veio desse momento ainda criança.

Um aspecto do trabalho do Haruo que é muito emblemático para a cidade é o registro histórico feito aqui ainda durante a chegada dos pioneiros… (Décadas de 30/40). Teve algum momento em que você percebeu que ‘poxa, meu avô fez algo historicamente importante’, a coisa dele ter documentada coisas que pouco eram documentadas…
Essa percepção de que ele é um super fotógrafo, é uma coisa que estou ainda absorvendo… Pra mim sempre foi difícil vê-lo como um fotógrafo, era meu avô! As pessoas foram falando, reconhecendo isso, eu como fotógrafo sei que as imagens são muito boas, mas quando vejo as fotos, quando ele registrava, são fotos voltadas para ele principalmente, para a concretização das ideias dele, mas voltadas para o núcleo familiar e de amigos dele… É um contexto no qual ele estava vivendo. Ele tinha a consciência também de que era um trabalho de valor, ele tinha essa consciência sim, de artista. Foi só lá por 1998, quando a família retoma esse contato com a obra dele (Por causa do filo) a gente percebeu que era algo importante, que tinha um valor e que precisava ser preservado e divulgado de maneira correta.

Você esteve pelo Japão recentemente, em uma cidade onde ocorreu uma exposição com fotos do Haruo… como foi isso?
Em abril deste ano teve a abertura da exposição do Haruo Ohara (No museu de arte de Kochi) é no Sul na ilha Shikoko – Em frente à Hiroshima – é uma cidade pequena, com 300 mil habitantes, mas tem um simbolismo grande, foi a cidade natal dele. O local de onde ele saiu como imigrante, devido à pobreza e veio para cá trabalhar… Ele volta pra cidade natal como um artista, pela primeira vez (Ele nunca retornou para o Japão) como um artista, isso foi bem simbólico, bem importante.

E lá no Japão, o interesse do pessoal é maior na parte artística ou na história das fotos?
As duas facetas, talvez a curiosidade de ser um cidadão de lá que volta com um trabalho extremamente bonito, que fala da migração (Processo que todo mundo fala que foi difícil) mas que o Haruo optou por contar de uma maneira sensível, poética, extremamente sensível. Mas tanto a parte histórica como a qualidade de imagem do Haruo chama a atenção…

Você falou um pouco das saídas com ele para fotografar… Tem alguma lembrança dele como fotógrafo que te marcou bastante, enquanto vocês fotografavam, algum toque ou conselho que ficou na lembrança?
Teve uma vez, que eu fiz uma foto do salto do Apucaraninha (Região de Tamarana) há muito tempo atrás, por volta de 1982 (Eu era criança) e ele revelou e ampliou pra mim essa foto, e pediu para eu assinar, que era como ele fazia também nas fotos dele. Eu vejo isso hoje né, ali acho que foi o reconhecimento de ter feito uma imagem fotográfica, esse momento foi bem marcante para mim.

Além dessa parte histórica e da poética dele, que era muito forte… O que você acha que fez com que esse trabalho atravessasse os anos e ainda seja considerado tão importante hoje?
Eu vi um comentário uma vez, de um crítico, sobre a obra do Haruo Ohara… Ele falava que era uma obra sincera, não era algo forçada, não era uma ideia que empurrou para as pessoas, é algo que representa muito o que ele era e o que ele pensava como ser humano.

Seu avô tinha um lado político, de uma intenção política quando fotografava?
Ele tinha, com certeza… Já fotografou series com crianças de ruas, e outros retratos da miséria. Mas ele não tinha essa preocupação 100%, sempre foi extremamente discreto quanto aos posicionamentos.