Carnaval da resistência – Artistas e músicos realizam matinê na Alma Brasil

Músicos, artistas, produtores culturais e foliões (De várias idades) compareceram na última segunda-feira (27) à Matinê de Carnaval realizada na Vila Cultural Alma Brasil (Vila Brasil). O evento foi organizado por alguns dos produtores culturais e artistas que, inicialmente, realizariam projetos durante o feriado com o apoio do Programa Municipal de Incentivo à cultura (Promic). Com o súbito cancelamento do edital, produtores optaram por realizar uma serie de eventos como forma de resistência, e ainda, para atender o público que sempre comparece aos carnavais populares da cidade.

Público compareceu e celebrou várias 'marchinhas' tocadas pelo Cordão da Serpentina - Foto: Bruno Leonel/Rubrosom
Público compareceu e celebrou várias ‘marchinhas’ tocadas pelo Cordão das Serpentinas – Foto: Bruno Leonel/Rubrosom

O primeiro deles ocorreu na última quinta (22) no Centro de Convivência da Pessoa Idosa (CCI)  e um total de quatro eventos (Até esta terça) serão realizados. O trabalho para a produção das apresentações havia já começado quando o cancelamento foi publicizado “Iniciamos há algum tempo sim. Para este carnaval do CCI, já estamos com todo o figurino pronto (Para a parte cenográfica) e também há dois meses estávamos ensaiando um repertório de 60 canções… Após essa notícia do cancelamento, todos os músicos se voluntariam para fazer essa apresentação e pudemos contar ainda com a equipe do carnaval das marchinhas que participará também”, contou Camila Taari do Cordão das Serpentinas. O grupo foi o primeiro dos três ‘blocos’ que se apresentou durante a segunda na Alma Brasil levando marchinhas clássicas e canções de carnaval ao espaço. O evento também contou com apresentações do Maracatu Semente de Angola, da Pisada da Jurema, e ainda, a Cia. Boi Voador que fez performances no local.

Por volta das 16h o pessoal do Cordão das Serpentinas iniciou o 'bloco' com marchinhas de carnaval - Foto: Bruno Leonel/Rubrosom
Por volta das 16h o pessoal do Cordão das Serpentinas iniciou o ‘bloco’ com marchinhas de carnaval – Foto: Bruno Leonel/Rubrosom

A diversidade de idade – Com foliões indo desde adolescentes, pessoas mais velhas e até mamães com crianças pequenas – foi um dos chamativos do evento. Não era comum ver famílias inteiras participando da cantoria e das marchinhas, e até, puxando um trem elétrico durante alguns momentos das apresentações do Cordão das Serpentinas. Toda a renda obtida com a bilheteria (Adultos pagavam R$ 10 e crianças R$ 5) foi revertida para os próprios artistas e também para bancar gastos, já feitos previamente, durante os preparativos para o carnaval.

Artistas da Cia Boi Voador (em destaque) também participaram da matinê do último domingo (27) - Foto: Bruno Leonel/Rubrosom
Artistas da Cia Boi Voador (em destaque) também participaram da matinê do último domingo (27) – Foto: Bruno Leonel/Rubrosom

A Cia de teatro Boi Voador também animou o evento com performances de perna de pau e também interagindo junto com os presentes. Mesmo com todas as adversidades, os coletivos todos mostraram uma possibilidade de um ‘carnaval popular’ ainda que tenham tido pouco tempo para os preparativos. A festa ainda contou com cantos e percussões do grupo Pisada da Jurema, que envolveu ao público e seguiu com uma apresentação enérgica (Em todos os sentidos) e bastante inspirada do Maracatu Semente de Angola, que encerrou os trabalhos, tocando até perto das 22h. O evento não apenas celebrou o carnaval de forma festiva, como também, uniu cores, referências e linguagens distintas em prol de um mesmo sentimento.  O público apreciou, e para os artistas, o saldo foi positivo.

Pisada da Jurema foi o segundo 'bloco' da matinê com seus cantos e percussões - Foto: Bruno Leonel/Rubrosom
Pisada da Jurema foi o segundo ‘bloco’ da matinê com seus cantos e percussões – Foto: Bruno Leonel/Rubrosom

Muitos dos presentes concordaram que foi um evento de resistência. “Quiseram acabar com o carnaval na cidade, mas isso a gente não permite… Estamos sim com problemas sérios (pela questão do patrocínio), tivemos despesas e um investimento prévio e ai tivemos que brecar tudo…. Mas por uma questão de resistência, e também, de estarmos juntos, resolvemos manter a programação. A gente quase que paga para trabalhar, deixa de receber por outros trabalhos que podia estar fazendo até o aluguel de equipamentos”, contou Luan Valeiro, membro da Cia Boi Voador.

Segundo Luan, que também trabalha junto á Vila Cultural Flapt (Região Norte) a atual situação permite até falar em sabotagem do carnaval, por parte de setores contrários à sua realização. “Como gestor cultural, e acompanhando movimentos que aconteceram (Tanto do patrocínio e do carnaval), eu diria que foi uma sabotagem sim, eu sei que há muita perseguição à certos movimentos… Há articulações hoje que tentam tirar a ideia de que a cultura é um bem público, que deve ser financiada pela verba pública, é nisso que eu acredito e é nisso que acredita a Rede Brasileira de Teatro de Rua, esse investimento para a cultura é necessário”, contou Luan à reportagem. Luan trabalha já há cinco anos com projetos ligados ao carnaval da cidade.

Maracatu Semente de Angola foi o terceiro bloco do carnaval da Alma, realizado na última segunda-feira (27) - Foto: Bruno Leonel/Rubrosom
Maracatu Semente de Angola foi o terceiro bloco do carnaval da Alma, realizado na última segunda-feira (27) – Foto: Bruno Leonel/Rubrosom

Como parte da organização do evento, duas vilas culturais participaram diretamente da organização da Matinê, a Alma Londrina e também a Flapt – Onde originalmente aconteceria o Carnaval das Marchinhas. Sobre a atual situação da cultura, e também as questões ligadas ao cancelamento do edital, o Presidente da Ong Flapt, Douglas Pinheiro, conversou com nossa reportagem. “O Promic foi um projeto muito interessante para a cidade nesses 15 anos em que vem sendo feito, e, muita gente na cidade desconhece a aplicação disso, não há um esforço mútuo para que ações da cultura sejam divulgadas, acontecem coisas muito pontuais e a população desconhece isso as vezes… Quando há um problema de organização, essa cultura mais uma vez fica sem apoio de comunicadores para criticar processos administrativos e também para se posicionar”, ele citou.

“No momento em que mais precisávamos, não houve um debate público (Sobre o cancelamento do Promic), percebemos que os meios de comunicação maiores parecem não se preocupar com isso, são isentos mas não ajudam a divulgar os espaços… Parece que a discussão está sendo levada por interesses”, pontuou Douglas em entrevista ao Rubrosom.