Arte e Censura – Sesc Cadeião realiza circuito de debates

No mês de novembro, o Sesc Cadeião Cultural dá continuidade à programação do Café Com Quê e traz para o público londrinense um ciclo de debates temático. Com encontros agendados para os dias 7 e 28 de novembro, o projeto vai promover dois bate-papos especiais sobre Arte e Censura, discutindo questões conceituais relacionadas à manifestação e à fruição artística no tempo presente.

No currículo, além da pesquisa aprofundada sobre o corpo na manifestação artística, também se soma a experiência de ator e performer, que ele compartilha neste debate que deve tocar, também, questões do tempo presente - Foto: Divulgação
No currículo, além da pesquisa aprofundada sobre o corpo na manifestação artística, também se soma a experiência de ator e performer, que ele compartilha neste debate que deve tocar, também, questões do tempo presente – Foto: Divulgação

O primeiro encontro, que abre o circuito, acontece na próxima terça-feira, 7, e conta com a presença do professor, ator e pesquisador Aguinaldo Moreira. Aguinaldo traz o debate “O Corpo em sua Manifestação Artística” e discute, a partir de seu trabalho de pesquisa em performance, a presença do corpo nu nas artes cênicas e outras linguagens.

Aguinaldo Moreira integra o corpo docente do curso de Artes Cênicas da UEL e reúne em seu trabalho de pesquisa o estudo sobre o Corpo Ator. No currículo, além da pesquisa aprofundada sobre o corpo na manifestação artística, também se soma a experiência de ator e performer, que ele compartilha neste debate que deve tocar, também, questões do tempo presente.

Formas sociais da liberdade e da censura
No dia 28 de novembro, dando continuidade ao circuito, os professores Manoel Dourado Bastos e Marcia Neme Buzalaf trazem o debate “Formas Sociais da liberdade e da Censura: para vencer o ressentimento”. Na oportunidade, os professores apresentam alguns debates teóricos consolidados que possibilitam ao público a compreensão dos conceitos e das formas de liberdade e de censura ao longo do tempo.

Sobre
O projeto Café Com Quê? é uma iniciativa do Sesc que comtempla a realização de debates e palestras sobre arte, cultura, filosofia e temas afins. O circuito recebe, via edital, propostas da comunidade geral que, depois de selecionadas, são apresentadas ao público no espaço da Galeria de Artes do Cadeião, sempre nas noites de terça-feira. Os encontros acontecem sempre às 19h30 e são abertos ao público, com participação gratuita.


Café com Quê – Ciclo de debates sobre Arte e Censura
“O Corpo Em Sua Manifestação Artística”
com Aguinaldo Moreira

No currículo, além da pesquisa aprofundada sobre o corpo na manifestação artística, também se soma a experiência de ator e performer, que ele compartilha neste debate que deve tocar, também, questões do tempo presente - Foto: Divulgação
No currículo, além da pesquisa aprofundada sobre o corpo na manifestação artística, também se soma a experiência de ator e performer, que ele compartilha neste debate que deve tocar, também, questões do tempo presente – Foto: Divulgação

Café com Quê – Ciclo de debates sobre Arte e Censura
“O Corpo Em Sua Manifestação Artística” com Aguinaldo Moreira
Dia 07/11 – às 19h30 SESC Cadeião Cultural (R. Sergipe, 52, Londrina/PR)
Entrada gratuita

Desorganismo – Formandos de Cênicas se apresentam hoje

Conflitos, incômodos da infância, perturbações do do dia-a-dia e algumas reações, vividas por pessoas do cotidiano diante destes desconfortos. É com alguns destes temas (E dezenas de outros relacionados) que se forma o contexto do espetáculo ‘Desorganismo’ realizado por formandos de Artes Cênicas da UEL, e que será apresentado nesta sexta (4) em Londrina na Divisão de Artes Cênicas da UEL. A peça conta com 13 atores no elenco e coordenação do professor Dr. Aguinaldo de Souza. A peça teve uma pré-estreia durante a última quinta (03) na ocupação do Departamento de Artes Cênicas da UEL.

Início da peça 'Desorganismo' encenada por formandos de Artes Cênicas da UEL - Foto: Bruno Leonel/Rubrosom
Parte do elenco durante o início da peça ‘Desorganismo’ encenada por formandos de Artes Cênicas da UEL – Foto: Bruno Leonel/Rubrosom

O foco aqui não é estabelecer uma trama ou cronologia linear, e sim, seguir um caminho mais abstrato. Tão abstrato quanto pode parecer a percepção de um grupo de pessoas que tenta ‘tatear’ a possibilidade de uma harmonia e ordem orgânica, através de ações permeadas por relatos de lembranças recentes, e antigas, todas sobrepostas no mesmo tempo e espaço. Ao longo de pouco mais de uma hora, o espectador é submetido à diversas sensações em sequência. Sem pausa, há desde momentos silenciosos e trechos com breves monólogos, até sequências introspectivas e picos de profunda tensão com lapsos de náusea (Mas sem spoilers ok?). Como uma espécie de mosaico, o texto foi elaborado coletivamente a partir de informações pessoais que cada um dos atores trouxe para o projeto. A montagem rica e, repleta de nuances, é um dos destaques, tanto em relação ao uso inteligente do espaço, dá quantidade de elementos – Indo desde uso de pernas de paus, cenas de destaque apenas à expressão corporal, objetos até a quantidade de eventos e interpretações diversas, acontecendo ao mesmo tempo, em momentos com mais de 10 atores em cena – Há até um interessante momento de ‘caos’ sincronizado feito pelo grupo ao som da música Blue Monday, do grupo New Order.

Movimentos separados e pequenos eventos feitos em grupos de 3 ou 4 atores são alguns dos elementos presentes na peça - Foto: Bruno Leonel/Rubrosom
Movimentos separados e pequenos eventos feitos em grupos de 3 ou 4 atores são alguns dos elementos presentes na peça – Foto: Bruno Leonel/Rubrosom

Segundo o coordenador, o conceito foi todo formado a partir de quatro questionamentos, ligados à traumas e incômodos que os próprios atores carregavam da infância, e também, de eventos recentes vividos por cada um. “A peça como um todo vai purgando dores individuais, e também, dores coletivas, isso tudo não tem nem como falar sozinho porque, a construção foi toda feita em grupo. Essa metodologia dos questionamentos – Sobre traumas da infância, algo que você acha que precisa ser discutido urgentemente – é um dos procedimentos para a construção de um espetáculo performático mesmo, aí você dá os apoios, os estímulos e eles constroem. Todo o material poético é de depoimentos ou de observação da vida, as cenas se constroem gradativamente…”, pontua Aguinaldo de Souza.

Utilizando também um fundo musical, ora dissonante, ora mais ‘ameno’, os momentos mais cruciais do espetáculo ganharam força na apresentação. Seja no peculiar trecho no qual atores ‘assoviam’ o hino nacional, em meio a uma certa ironia com figuras patriotas até sequências ambientadas por ruídos drones e até fúnebres. Os recuros são inúmeros; Há momentos por exemplo em que, todas as luzes do local são apagadas e a única iluminação vista é gerada por lanternas usadas pelos próprios atores, quase como um reforço visual da ideia do ‘tatear’ harmonias em meio à escuridão que assola os seres humanos. Qualquer semelhança com o atual momentos histórico (do mundo) talvez não sejam mera coincidência, não apenas em relação ao lado político, mas também, como uma forma de abrir os olhos para o reconhecimento da própria identidade e auto-entendimento em meio a um contexto de muitos questionamentos sobre temas como identidade, e a, repressão por parte de setores, algumas vezes, contrários à esse próprio entendimento. O profesor Aguinaldo de Souza cita o grupo mexicano La Pocha Nostra como uma referência importante do trabalho “Escolhemos uma estética, com esse estilo de encontro com as formas mais bizarras e agressivas retratadas na intervenção”, contou o coordenador à reportagem do Rubrosom.

Frente do prédio principal do Centro de Artes Cênicas (UEL) ocupado desde o último dia 24 - Foto: Bruno Leonel/Rubrosom
Frente do prédio principal do Centro de Artes Cênicas (UEL) ocupado desde o último dia 24 – Foto: Bruno Leonel/Rubrosom

Ocupação – Usando o formato de performance sequencial, em que as ações ocorrem em um espaço de tempo determinado, uma após a outra, a apresentação de ‘Desorganismo’ na última quinta, foi vista por cerca de 30 pessoas, dentro de uma das salas do Departamento de Artes Cênicas da UEL. O Centro foi o primeiro a ser ocupado (No dia 24 de Outubro) dentro do Centro de Educação, Comunicação e Artes (CECA) da UEL.  Dentre as principais pautas, o grupo manifestou repúdio às PEC 241, que eles citaram como “um ataque direto ao direto à saúde e educação, congelando os valores investidos nas áreas da educação” e a MP 746 Confira nota do Centro Acadêmico de Cênicas AQUI.  Atualmente, os centros de Comunicação, Artes, Pedagogia, Música e Pedagogia – Todos também do CECA, encontram-se ocupados. Atividades culturais estão sendo realizadas nos espaços durante toda a semana.

Elenco: Amarilis Irani, Alan Buck, Beatriz Sitta, Danilo Neiva, Gabriel Yuri Kondo, Heloisa Goulart, João Henrique Schiavo, José Henrique Silva, Luan Almeida Sales, Marco Antônio Paixão, Marina Rodrigues Quesada, Murilo de Andrade, Paulo Vitor Miranda e Rogério Francisco Costa.


Ficha Técnica
ILUMINAÇÃO:
O Grupo
SONOPLASTIA: Marco Antonio Paixão
COORDENAÇÃO: Aguinaldo de Souza


SERVIÇO
Desorganismo
Entrada: Produtos de limpeza ou higiene.
Data: 04/11 a 06/11, às 20h30.
Local: Divisão de Artes Cênicas – Casa de Cultura – UEL
Av. Celso Garcia Cid, 205

Procura-se um corpo: Grupo realiza intervenção no centro de Londrina

“Pedro? Adriana?… “, perguntam em voz alta algumas das pessoas do grupo, enquanto caminham em círculos no meio do calçadão de Londrina. Todos vestem trajes pretos (Semelhantes à roupas de luto) além de objetos como pás e também fotos, de pessoas desaparecidas em meados da década de 70. Quem passou pelo local não ficou indiferente, parou para observar e para entender quem eram aquelas pessoas que ‘procuravam desaparecidos’.

Intervenção iniciou por volta das 12h30 no Calçadão de Londrina - Foto: Bruno Leonel/Rubrosom
Intervenção iniciou por volta das 12h30 no Calçadão de Londrina – Foto: Bruno Leonel/Rubrosom

A intervenção é resultado da oficina cênica “Procura-se um corpo”, realizada desde o último dia 27 , com a atriz e encenadora Tânia Farias (RS), dentro da extensão do 14º Festival de Dança de Londrina. Ela é integrante de um dos coletivos mais resistentes e emblemáticos no teatro político brasileiro, a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, de Porto Alegre. Segundo a divulgação, Tânia buscou, de forma poética, trazer o debate e a reflexão sobre o que foram os anos de ditadura militar no país, entendendo a arte como ato de resistência.

O ato durou cerca de 30 minutos. Participantes portavam pás e fotos de pessoas desaparecidas durante os anos 70 no Brasil - Foto: Bruno Leonel/Rubrosom.
O ato durou cerca de 30 minutos. Participantes portavam pás e fotos de pessoas desaparecidas durante os anos 70 no Brasil – Foto: Bruno Leonel/Rubrosom.

O ato de intervenção ‘Em um espaço público’ era previsto no cronograma das atividades, mas, apenas nesta segunda foi revelado o local. Por volta das 12h30, desta segunda, o grupo formado por cerca de 30 atores caminhou pelo calçadão de Londrina (Próximo à Rua Professor João Cândido) em um semblante de seriedade e portando pás, quase como um cenário de luto e de sepultamento pelos ‘desaparecidos’ que buscavam.

Foto: Bruno Leonel/Rubrosom
Foto: Bruno Leonel/Rubrosom

Após alguns movimentos circulares, cada um dos membros seguiu em uma direção diferente do espaço, parando pessoas pelo calçadão e, com fotos antigas nas mãos, perguntando se alguém havia visto aquelas pessoas da foto. Nas imagens, já marcadas pelo tempo, rostos de anônimos e de pessoas desaparecidas durante a década de 70 e em situações ligadas à movimentos como a Guerrilha do Araguaia. Um grupo de senhoras pergunta sobre o ato e, um dos atores, explica do que se trata. Em sequência, um som bastante fúnebre – ecoando de caixas de som levadas pela produção – começa a soar no local, criando um clima mórbido. Há até uma das atrizes que é carregada, em uma espécie de cortejo fúnebre.   Os atores, um a um, começam a se deitar no chão, enquanto outros dos participantes riscam com giz o contorno dos corpos no chão – Quase como uma evidência de cena de crime. Mas aqui, a situação é diferente, pelo menos para os opressores não existe crime se não há prova, logo, é como se muitos dos ‘desaparecidos’ nunca tivessem existido. Por volta das 13h, a intervenção se encerra, com o grupo todo se dispersando, em silêncio, sem maiores falas sobre o que acabara de ocorrer.

Atores simulam um 'cortejo fúnebre' durante ato nesta segunda, no calçadão de Londrina - Foto: Bruno Leonel/Rubrosom
Atores simulam um ‘cortejo fúnebre’ durante ato nesta segunda, no calçadão de Londrina – Foto: Bruno Leonel/Rubrosom

Em meio a uma época de conflitos e de intensa instabilidade política no Brasil. A reflexão proposta pelos artistas busca resgatar eventos do passado para, talvez assim, traçar paralelos sobre as próprias contradições do nosso momento histórico atual. Em meio a um período de crise e, no qual, muitas pessoas ainda manifestam desejo da ‘volta’ do regime militar, que ceifou com muitas vidas e com famílias inteiras, o tom denso e mórbido da intervenção, ao fim, deixa até uma sensação de alívio, uma vez que nos recordamos de marcas da nossa história que, felizmente, ficaram no passado – Mas, que devem ser lembradas para que muitos dos erros, jamais, voltem a acontecer.