Mostra Sci-fi – Ficção buscou representar temores das pessoas diante o desenvolvimento tecnológico, cita pesquisador

Termina nesta semana a mostra sci-fi realizada em Londrina pelo Sesc Cadeião Cultural. John Carpenter, Mario Bava e Jack Arnold são alguns dos diretores relembrados, desde a abertura da mostra na última quarta-feira (07). O espaço preparou uma jornada de quatro décadas pelo mundo dos “filmes B” da ficção científica. O evento segue até 14 de março e traz seis importantes longas-metragens que retratam a ficção científica dos anos 50, 60, 70 e 80.

O clássico 'Eles vivem' (John Carpener) de 1988 encerra a mostra nesta quarta - Foto: Divulgação
O clássico ‘Eles vivem’ (John Carpener) de 1988 encerra a mostra nesta quarta – Foto: Divulgação

A programação iniciou com uma abertura feita pelo professor Dr. André Azevedo da Fonseca,  pesquisador do departamento de comunicação da UEL. Na mesma noite, o filme “A ameaça que veio do espaço” (1953), do diretor Jack Arnold, foi exibido Cadeião. “Há ainda muita controvérsia sobre a origem da ficção científica propriamente dita. Muitos entendem que o romance Frankenstein: o moderno prometeu, de Mary Shelley, no início do século XIX, se tornou, à posteriori, a primeira obra de ficção científica da história. Este é um gênero moderno por definição, pois o próprio conceito de ciência, tal como o conhecemos hoje, é recente”, contou André Azevedo em entrevista ao Rubrosom. Ao longo da semana, além de A Ameaça Que Veio do Espaço, a mostra apresentou títulos de diretores consagrados das 4 décadas. Mario Bava e Joseph Losey compõem a mostra com O planeta proibido (1956), Os malditos (1963), O planeta dos vampiros (1965), Fuga no século 23 (1976) e Eles vivem (1988) que será exibido nesta quarta. 

O segundo filme da mostra 'O planeta proibido' de Fred M. Wilcox, será exibido no dia 8 de março - Foto: Divulgação
O segundo filme da mostra ‘O planeta proibido’ de Fred M. Wilcox, será exibido no dia 8 de março – Foto: Divulgação

Para André, a relação das artes e do entretenimento com o tema de ficção científica é anterior ainda à história do cinema “A literatura de ficção científica buscou representar os desejos e os temores das pessoas diante o desenvolvimento cada vez mais acelerado de processos e artefatos tecnológicos. Por isso a ficção científica é fundamentalmente diferente de narrativas da cultura oral, baseadas em mitos, e também de outras narrativas escritas clássicas que imaginavam futuros alternativos, como vemos, por exemplo, em Utopia, de Thomas Morus”, concluiu Azevedo.

Sobre a mostra Sci-Fi – O gênero de ficção científica é reconhecido por sua diversidade e intensa produção. A mostra Scfi-Fi busca, dentro dessa vasta obra, apresentar títulos que suscitem a discussão e o debate, tanto sobre o gênero, quanto sobre o período de sua produção.

Com essa intenção, o catálogo da mostra é divido em seções por década, como um almanaque. Cada espectador presente na abertura da mostra também receberá um exemplar do catálogo, a fim de acompanhar as diversas informações, curiosidades, a vida dos diretores e análise das obras. A Mostra, enfim, traz os títulos como ponto de partida para um entendimento amplo do gênero de ficção científica e também do tempo, seja o tempo em que os filmes foram produzidos, ou o tempo que as obras “imaginaram” que o futuro seria. “Ficção científica, na verdade, não fala do futuro. Mas representa os anseios do presente em relação às consequências possíveis do desenvolvimento das tecnologias contemporâneas. Este gênero procura identificar e desenvolver, através da ficção, algumas das tendências ainda embrionárias das ciências de seu tempo. Por isso, ao contrário de prever o futuro, o gênero contribuiu para desenvolver a imaginação e estimular a crítica ética sobre os caminhos percorridos e desejados pela comunidade científica na atualidade”, pontua André.

Quando questionado sobre a certa crítica feita ao gênero, que muitas vezes é considerado um ‘elo perdido’ ligado à uma projeção do futuro que, de fato, nunca se concretizou, André cita as outras preocupações e aspectos analisados na produção do gênero. “Nesse sentido, a produção pioneira no cinema de ficção científica revela outras coisas. Não tem sentido exigir que os criadores do passado “adivinhassem” as tecnologias que surgiriam décadas depois. Se os filmes abordaram as preocupações de seu tempo, agora contribuem como fontes primárias de história para que a gente possa compreender quais eram as ameaças que agitavam a imaginação da humanidade no passado. E esse exercício sempre contribui para que a gente possa comparar os fantasmas do passado com aqueles que criamos atualmente e, assim, nos conhecermos melhor. Observar uma caricatura sempre nos ajuda a enxergar melhor os detalhes decisivos que passam despercebidos. Além disso, é muito interessante verificar os caminhos imaginados – mas não trilhados – pela ciência para compreender que o presente é o resultado da cooperação e da disputa entre inúmeras tendências que coexistiam. A ciência não é uma avenida reta, mas uma árvore viva com galhos que se bifurcam indefinidamente. Tecnologias de ponta se tornam rapidamente obsoletas; pesquisas de teoria pura aparentemente incompreensíveis detonam tecnologias revolucionárias, cruzamentos interdisciplinares produzem frutos inesperados, acidentes de percurso provocam descobertas inimagináveis e redirecionam todo um campo de pesquisa…”.

O professor ainda conclui, “Quando um paradigma tecnológico é suplantado por outro, toda uma representação de futuro baseada nesse alicerce simplesmente desmorona. Mas isso não quer dizer que as representações de futuro do passado, tornadas fantasmagóricas, foram inúteis. Ao contrário, a imaginação é precisamente uma das forças mais importantes que, ao lado da técnica, impulsiona as inovações. Frequentemente a ciência tem uma relação de mão dupla com a ficção científica: uma é influenciada pela outra e vice-versa. E como a lógica da ciência é o desenvolvimento, é natural e desejável que as tecnologias e as suas representações na arte sejam superadas e renovadas, explorando novos caminhos. É curioso observar, no entanto, que muitos temas perduram. O problema da tecnologia que sai do controle humano, por exemplo, é recorrente. Nesse sentido, revisitar os filmes do passado também contribui para observar quais problemas éticos e filosóficos são duradouros, e quais perderam o sentido”, conclui André.

A realização desta mostra de cinema está diretamente vinculada ao projeto CineSesc, idealizado pelo Núcleo de Cinema do Departamento Nacional do Sesc (RJ) e presente em centenas de Unidades do Sesc por todo o Brasil. Através do projeto CineSesc, o público tem acesso a importantes produções audiovisuais nacionais e estrangeiras não relacionadas à lógica convencional do circuito comercial do cinema. Deste modo, o projeto abre um importante espaço para produtores independentes, como também oferece uma programação singular à comunidade londrinense.

PROGRAMAÇÃO
07 de março às 19h – Bate-papo de abertura com professor e pesquisador do Departamento de Comunicação do Centro de Educação Comunicação e Artes – CECA – da Universidade Estadual de Londrina UEL + lançamento e distribuição do catálogo da mostra

07 de março às 20h – A ameaça que veio do espaço (Dir. Jack Arnold, 80min, 1953) – exibido
08 de março às 20h – O planeta proibido (Dir. Fred M. Wilcox, 90min, 1956) – exibido
09 de março às 20h – Os malditos (Dir. Joseph Losey, 95min, 1963) – exibido
10 de março às 16h – O planeta dos vampiros (Dir. Mario Bava, 88min, 1965) – exibido
11 de março às 16h – Fuga no século 23 (Dir. Michael Anderson, 119min, 1976) – exibido
14 de março às 20h – Eles vivem (Dir. John Carpener, 94min, 1988)


Serviço:
Clássicos Sci-Fi – Mostra de Cinema
de 07 a 14 de março de 2018
Ingressos gratuitos, disponíveis sempre com 1h de antecedência de cada sessão
Sesc Cadeião Cultural
R. Sergipe, 52, Centro
Londrina/PR

Rubrosom arquivo – Relembrando Fernanda Jiran

Faleceu na noite da última quarta-feira (3), em Londrina, aos 85 anos, a professora de Literatura aposentada e produtora cultural Fernanda Jiran. A professora era colaboradora voluntária da UEL FM desde agosto de 1993, sendo uma das mais antigas produtoras e agitadoras da rádio. Durante seu tempo de colaboração, Jiran produziu e apresentou três programas semanais: “Brasil Camerístico”, “Para Gostar de Ópera” e “107 Clássicos”. Na UEL FM, era a mais antiga colaboradora em atividade, tendo sido por este motivo homenageada com placa e certificado em junho do ano passado, quando a emissora completou 25 anos de funcionamento.

Também lecionou durante décadas no Colégio Vicente Rijo e ministrou aulas de teoria literária no curso de Letras da UEL - Foto: Divulgação.
Também lecionou durante décadas no Colégio Vicente Rijo e ministrou aulas de teoria literária no curso de Letras da UEL – Foto: Divulgação.

Fernanda também foi uma das criadores do cineclube que, durante os anos 90/2000 reuniu aficionados por filmes clássicos no prédio da antiga Associação Médica de Londrina (Hoje espaço cultural do Sesi). Na cidade ela é lembrada como uma das maiores divulgadoras da música clássica, e também, de cinema, em uma época na qual havia grande dificuldade em se obter certos filmes. Como forma de homenagem, publicaremos a seguir uma matéria, feita no ano de 2011, e nunca antes publicada, onde Jiran contou ao repórter Bruno Leonel sobre os primórdios do cineclube. A entrevista foi feita no antigo apartamento da professora, próximo à Concha Acústica, e, foi inicialmente concebida para uma revista universitária que nunca saiu do papel… O material permaneceu inédito desde então.

Um Pouco de História

O ano é 1992. Em Londrina, havia um grupo de aficionados por cultura que se reunia semanalmente para trocar ideias sobre filmes e música clássica em geral. Durante as reuniões, em uma velha televisão, eram exibidos clássicos do cinema, como filmes de Bette Davis e outras pérolas dos anos 50 e 60. Eram ainda tempos do VHS, do som abafado e das dificuldades para se conseguir cópias de bons álbuns importados. Os discos em vinil estavam em alta. CD, no Brasil, ainda era coisa rara, logo, reunir-se em grupo, era uma forma de propagar as poucas (e preciosas) cópias dos filmes e discos que chegavam até aqui. O ponto de encontro era a antiga livraria Lido, no centro da cidade. Em meio a esse grupo estava a professora Fernanda Jiran, que era uma espécie de “curadora” dos encontros e sempre levava filmes e ideias novas ao grupo: “Eu recebia muitas fitas de amigos e conhecidos que viajavam para fora do país. Como era muito difícil encontrar alguns desses filmes na época, levávamos para as reuniões na livraria”, lembra a professora – que atualmente comanda a programação sobre música clássica, na rádio UEL FM. Embora o grupo fosse bastante seleto, havia pessoas muito interessadas.

O espaço da livraria era pequeno, mas mesmo assim, após alguns meses, mais e mais pessoas começaram a frequentar o local. Devido ao aumento do número de participantes, Fernanda teve a ideia de conseguir um telão para fazer a exibição dos filmes. Na época, perguntou a um amigo médico, ligado à administração da AML, se seria possível o empréstimo do equipamento para uso na livraria. Não conseguiu, mas em troca, foi oferecido o espaço do auditório da associação médica, para que lá fossem realizados os encontros. Foi assim que tudo começou.
Fernanda ainda se recorda claramente da data: 24 de Abril de 1992. Nesse dia aconteceu o primeiro encontro realizado na associação médica.

O novo espaço chamou atenção de muitas pessoas. Novos fanáticos por música, amigos dos fanáticos e eventuais curiosos, passaram a frequentar religiosamente o local, chegando a lotar o espaço algumas vezes. No início, os encontros aconteciam em uma sala do prédio no segundo andar, mas conforme o público aumentava, em agosto do mesmo ano, as reuniões passaram a se realizar no auditório da associação. Coincidência ou não, o filme escolhido para marcar a estréia foi o clássico “As Baleias de Agosto”, com Bette Davis.

Fernanda possuía ainda em acervo vários flyers e materiais usados para divulgação - Foto: Bruno Leonel (Arquivo).
Fernanda possuía ainda em acervo vários flyers e materiais usados para divulgação – Foto: Bruno Leonel (Arquivo).

Com o tempo, surgiram novas idéias para filmes. Saindo um pouco do lugar-comum de clássicos do cinema estado-unidense, outros estilos começaram a ter espaço nos encontros, especialmente aqueles dedicados à música brasileira. Fernanda conta que conseguiu uma cine-biografia do compositor Pixinguinha e que a obra passou a atrair um público de gosto mais eclético, possibilitando assim, uma troca de gêneros. Pouco a pouco uma “programação” de encontros foi sendo feita. Às segundas-feiras, o espaço era reservado à música clássica e, aos sábados, exibição de filmes com outras temáticas.

Surgiam, constantemente, novas ideias de atrações para o local. Uma delas foi trazer também música ao vivo ao espaço. Graças ao festival de música (e também à Universidade Estadual de Londrina – UEL), a cidade sempre teve tradição de bons músicos, e muitos achavam que a proposta poderia dar certo. Logo, toda segunda passou a ser dedicada também para apresentações ao vivo. Os gêneros eram os mais diversos possíveis, indo desde chorinho e concertos de piano a 4 mãos, até recitais de cordas. Para o público, era impresso um programa em formato de encarte, mais ou menos como, é feito até hoje em apresentações da OSUEL (Orquestra Sinfônica da Universidade Estadual de Londrina). Em meados de 1999, o projeto passou também a contar com auxílio do PROMIC (Programa de Incentivo à Cultura), cuja contribuição ajudava nos custos de manutenção do prédio, confecção dos programas e até o “coffee break”, que era oferecido ao público. Nenhum tipo de valor era cobrado para os encontros. Todas as apresentações e sessões de filmes eram feitas de forma gratuita.

“Eu estive lá”
Até hoje, o lugar ocupa um espaço cativo nos corações de vários músicos da região, como Flávio Colins, que se lembra com grande carinho do local. Formado em música pela UEL, Colins lembra que foi no auditório da AML onde fez sua estréia como regente, ainda no começo da orquestra jovem da Universidade, em 1996: “O lugar tem uma sonoridade incrível. Pra quem toca instrumentos acústicos era uma alternativa muito melhor que o cine-teatro Ouro Verde”. Flávio era também freqüentador assíduo do espaço: “Ou participava tocando, ou ia só pra prestigiar os colegas mesmo”, lembra Colins. Segundo ele, o clima elegante do local e o formato da sala tornavam a acústica um espetáculo a parte. Era comum grupos de corais e músicos solo optarem pelo local também para a gravação de suas apresentações. Músicos como o violista experiente, Jairo Chaves, que hoje faz parte da OSUEL, chegou a gravar no lugar por volta de 1996. O espaço se tornou muito popular, era bastante acessível para o público em geral e os freqüentadores se renovavam constantemente. Entretanto, dificuldades começariam a aparecer.

A partir do ano de 2001, não houve renovação do contrato com o PROMIC. Segundo Fernanda Jiran, a justificativa é que, eram realizados sempre os mesmos tipos de atividades ali, e os investimentos deveriam ser direcionados para outros tipos de projetos ligados a cultura. Com todas as dificuldades os encontros no auditório da associação se encerraram no início de 2007, quando finalmente foi desativado para atividades culturais, após quase 15 anos de realizações e de ter formado um público fiel. Foi-se o espaço e o que ficou foi uma certa nostalgia nos corações que, dali em diante, não teriam mais o ponto de encontro. Não é difícil compreender a falta que o espaço fez. Se nos dias de hoje ainda é difícil conseguir bons espaços para projetos culturais em Londrina, nos anos 90 – especialmente fora de temporadas como as do FILO e do FML – os encontros na AML muitas vezes foram a única opção de entretenimento para quem buscava locais com propostas diferenciadas de música e cinema. A desativação ocorreu, principalmente, devido à questão financeira e à falta de logística para manter o local Fernanda Jiran, conta que após o fechamento do espaço o que restou foram a saudade e as lembranças da época. “O contato com o público e a satisfação com a qual o pessoal saía de lá ao fim das apresentações não tinha explicação”

Novos tempos

O encerramento das atividades no auditório, criou um vazio entre seus apreciadores. Ainda que hoje, Londrina ofereça novas opções, tanto de espaço, como de propostas, o auditório da AML já carrega sua própria história, cristalizada no imaginário do público que ali comparecia e que, encontrou uma lacuna, com o fim de suas apresentações. Se a reativação do auditório, não puder preencher esse vazio, ao menos, deverá levar às novas gerações um pouco da história e da certa “aura” que permeia o espaço. Na opinião de Jairo, o enfoque deveria voltar a ser a música clássica: “É um espaço que funciona muito bem com esse gênero, será uma pena se ele for utilizado somente para outros estilos musicais”. Jairo, que se apresentou por lá até os últimos dias, conta que sente falta do ponto de encontro que o local representava. Ainda sem nova programação definida, o que resta no momento, é a expectativa de ter de volta aquele lugar aconchegante, e um pouco daquela aura de um auditório que no passado foi cenário de tantas boas parcerias e encontros.