Mostra de Cênicas UEL – Temos que refletir sobre o nosso tempo, conta ator

Começa nesta segunda-feira (19) a 14ª Londrina Mostra de Teatro e Circo de Londrina, em comemoração aos 20 anos do Curso de Artes Cênicas da UEL. Abrindo a temporada, a Cia Cascalhos apresenta hoje a peça ‘O Jardim dos Girassóis Esquecidos’ na Divisão de Artes Cênicas da UEL, em Londrina.  A mostra foi organizada pela DAC, estagiários (Núcleo de produção) e turmas 01 e 02 do 1º ano de Artes Cênicas O espetáculo começa 20h, e a entrada é gratuita.

A peça 'O Jardim dos Girassóis Esquecidos' será apresentada nesta segunda - Foto: Fagner Bruno e Lucas Godoy
A peça ‘O Jardim dos Girassóis Esquecidos’ será apresentada nesta segunda – Foto: Fagner Bruno

A peça com dramaturgia assinada por Edilson Oliveira, que também atua, fala sobre a temática da violência urbana, em especial àquela que todos os dias tira a vida de pessoas que vivem nas periferias e que todos os dias são alvo de preconceito, seja ele social ou racial. A peça é resultado de um trabalho desenvolvido pelo ator para sua pesquisa de conclusão de curso, segundo Oliveira, o trabalho foi iniciado ainda em 2013. Edilson comenta sobre a programação, que ainda, inclui oficinas práticas. “Haverá também oficinas voltadas à performance cênica, e ainda, performance de bonecos. Atores e entusiastas podem participar mediante à inscrição”, contou Oliveira.

Nos poucos metros que andei pelo mapa, encontrei um jardim de girassóis esquecidos. Decidi regar os girassóis, pois, eles trazem em sua beleza, a simbologia da morte e da vida! Neste espetáculo, minhas inquietudes enquanto bicho humano e artista, entoa um canto para os girassóis, que foram silenciados pelo racismo institucional”, cita o relise da peça.  “É uma arte engajada e que discute e reflete sobre as questões políticas e sociais do nosso tempo. O que eu trago para a arte, é essa vontade de fomentar uma reflexão. Em pleno 2018 estamos numa conjuntura política, no estado de exceção e, vendo nossos direitos sendo retirados, negados, vozes sendo silenciadas e isso me gera um incômodo muito forte… Desde o primeiro momento, eu penso que temos que refletir sobre o nosso tempo, e sobre o lugar onde eu moro. Desde 2013 venho trabalhado com essa temática, fiz pesquisas e conversei com várias pessoas ligadas à casos de violência, inclusive em outras cidades…”, contou Edilson “

Além da programação de apresentações, há também oficinas e outras atividades formativas, com inscrições abertas para atores e entusiastas da área. Confira no evento.


SERVIÇO
14ª Londrina Mostra de Teatro e Circo
Jardim dos Girassóis Esquecidos – Segunda (19) Divisão de Artes Cênicas
De 19 de março à 1 de abril

A mostra conta com a presença de espetáculos do cenário londrinense, incluindo artistas em formação e graduados pelo curso de Artes Cênicas da Universidade Estadual de Londrina.
Programação completa disponível no EVENTO

Teatro e exposições integram artistas em mostra no MARL

Reunindo artistas, grupos de teatro da cidade, atores e ainda calouros do curso de artes cênicas da UEL, teve início nesta quarta-feira (21) a 2ª Mostra MARL (Movimento dos Artistas de Rua de Londrina). O encontro reuniu em um mesmo espaço (O Canto do MARL na Avenida Duque de Caxias), diversas manifestações culturais e artísticas com entrada gratuita. O evento iniciou como uma mostra itinerante, e recentemente, passou a ser fixa, acontecendo de forma mensal no mesmo lugar. Esta segunda mostra segue até o dia 23.

Apresentações cênicas foram realizadas no primeiro dia da Mostra MARL - Foto: Bruno Leonel/Rubrosom
Apresentações cênicas foram realizadas no primeiro dia da Mostra MARL – Foto: Bruno Leonel/Rubrosom

A programação iniciou por volta das 19h30 com apresentação do grupo de teatro ‘Dois é Bom’. Em um ambiente de clima carregado, dois personagens em conflito (Talvez como uma metáfora da vida a dois, em diversas vertentes) expõe traumas e agonias enquanto, através de breves frases e gestos demonstram a influência (Ou anulação) provocada pela busca de se ‘enquadrar’ em determinados padrões. Diversas análises podem ser pensadas, sem grande obviedade, claro, com temáticas do cotidiano e das relações interpessoais.

Grupo 'Dois é Bom' iniciou as apresentações na 2ª Mostra MARL por volta das 19h50 - Foto: Bruno Leonel/Rubrosom
Grupo ‘Dois é Bom’ iniciou as apresentações na 2ª Mostra MARL por volta das 19h50 – Foto: Bruno Leonel/Rubrosom

Logo em seguida, os atores Gabriel Rubim e Mel Campus apresentaram ‘Escatomancia e Outras Histórias Secretas’ que em um cenário minimalista aliado à com poucos personagens (semelhante à anterior) examina introspecções e divagações dos personagens, – Assim como eventuais tentativas de ‘externar’ coisas ruins de si – através de uma linguagem mais abstrata, e até, incisiva do que a encenação anterior. A apresentação voltada ao público adulto provocou risos, e até, aplausos do público em momentos variados do espetáculo.

Dentro do ‘Canto do MARL’ obras e ilustrações do coletivo artístico”Barafunda”, eram expostos ao público. A programação da quarta encerrou com um debate, envolvendo educadores e professores, sobre as políticas culturais da cidade. Curiosos, estudantes e eventuais pessoas de passagem acompanharam grande parte do debate, e até, puderam se inteirar mais sobre o cenário atual da cultura na cidade.

Obras do coletivo 'Barafunda' foram expostas durante o primeiro dia da mostra - Foto: Bruno Leonel/Rubrosom
Obras do coletivo ‘Barafunda’ foram expostas durante o primeiro dia da mostra – Foto: Bruno Leonel/Rubrosom

Além das apresentações em si, outro ponto alto desta ‘abertura’ da mostra, sem dúvida, foi a integração proporcionada pelo grande número de estudantes presentes no espaço, muitos deles, de fora de Londrina e que viam como novidade as realizações do MARL na cidade. “To chegando agora em Londrina e já soube do MARL através dos veteranos. Eu vim de Taubaté e, por lá, não tem nada parecido com a experiência daqui, da ocupação. Eu acho muito interessante esse tipo de inicitiva, faltam investimentos nisso (Cultura) logo, é tudo importante. Junto com um amigo estamos participando das aulas de circo e, acho que deveriam ter mais iniciativas assim” contou o estudante Rafael Abdouni, do primeiro ano de Artes Cênicas (UEL) e que passou agora à conhecer mais sobre projetos desenvolvidos no espaço.

Ao final do evento, aconteceu ainda um bate-papo com estudantes e atores sobre as políticas culturais da cidade - Foto: Bruno Leonel/Rubrosom
Ao final do evento, aconteceu ainda um bate-papo com estudantes e atores sobre as políticas culturais da cidade – Foto: Bruno Leonel/Rubrosom

Considerando o momento atual como um período difícil para a cultura, diversos artistas e também pessoas participantes da mostra veem como simbólico a possibilidade de estar unindo a experiência de novos ‘calouros’ do curso de cênicas à realização do evento. Artistas envolvidos na organização acharam a experiência muito rica. “É uma ideia coletiva mesmo, apresentamos hoje uma cena produzida ao longo de 2016. Sempre no início de ano organizamos uma semana de recepção para os iniciantes do curso…  “É muito positivo estar reunindo este pessoal por aqui, o espaço do MARL – Movimento dos Artistas de Rua de Londrina começou com a ideia da ocupação, e, trazer os estudantes aqui já é demonstrar uma força de resistência!, A cultura hoje é o que cai primeiro (Em tempos de crise), e estamos em uma época de unir forças, sem dúvida, coletivizar é a palavra!”, contou o estudante Jeanderson Ferreira da Silva, do 4º ano de Cênicas, que participou da montagem do grupo ‘Dois é Bom’

Em nota, o Movimento dos Artistas de Rua de Londrina (MARL) reitera o agradecimento de toda população londrinense com trabalho cultural e afirma que ‘luta por ocupação de espaços públicos abandonados, oferecendo outra narrativa para os mesmos. Há flores que nascem do asfalto e estamos cultivando..”, pontua a divulgação. A programação continua todos os dias até o próximo domingo (23).


Informações
2ª Mostra do MARL
De 19 a 23 de Abril
Programação Aqui

Desorganismo – Formandos de Cênicas se apresentam hoje

Conflitos, incômodos da infância, perturbações do do dia-a-dia e algumas reações, vividas por pessoas do cotidiano diante destes desconfortos. É com alguns destes temas (E dezenas de outros relacionados) que se forma o contexto do espetáculo ‘Desorganismo’ realizado por formandos de Artes Cênicas da UEL, e que será apresentado nesta sexta (4) em Londrina na Divisão de Artes Cênicas da UEL. A peça conta com 13 atores no elenco e coordenação do professor Dr. Aguinaldo de Souza. A peça teve uma pré-estreia durante a última quinta (03) na ocupação do Departamento de Artes Cênicas da UEL.

Início da peça 'Desorganismo' encenada por formandos de Artes Cênicas da UEL - Foto: Bruno Leonel/Rubrosom
Parte do elenco durante o início da peça ‘Desorganismo’ encenada por formandos de Artes Cênicas da UEL – Foto: Bruno Leonel/Rubrosom

O foco aqui não é estabelecer uma trama ou cronologia linear, e sim, seguir um caminho mais abstrato. Tão abstrato quanto pode parecer a percepção de um grupo de pessoas que tenta ‘tatear’ a possibilidade de uma harmonia e ordem orgânica, através de ações permeadas por relatos de lembranças recentes, e antigas, todas sobrepostas no mesmo tempo e espaço. Ao longo de pouco mais de uma hora, o espectador é submetido à diversas sensações em sequência. Sem pausa, há desde momentos silenciosos e trechos com breves monólogos, até sequências introspectivas e picos de profunda tensão com lapsos de náusea (Mas sem spoilers ok?). Como uma espécie de mosaico, o texto foi elaborado coletivamente a partir de informações pessoais que cada um dos atores trouxe para o projeto. A montagem rica e, repleta de nuances, é um dos destaques, tanto em relação ao uso inteligente do espaço, dá quantidade de elementos – Indo desde uso de pernas de paus, cenas de destaque apenas à expressão corporal, objetos até a quantidade de eventos e interpretações diversas, acontecendo ao mesmo tempo, em momentos com mais de 10 atores em cena – Há até um interessante momento de ‘caos’ sincronizado feito pelo grupo ao som da música Blue Monday, do grupo New Order.

Movimentos separados e pequenos eventos feitos em grupos de 3 ou 4 atores são alguns dos elementos presentes na peça - Foto: Bruno Leonel/Rubrosom
Movimentos separados e pequenos eventos feitos em grupos de 3 ou 4 atores são alguns dos elementos presentes na peça – Foto: Bruno Leonel/Rubrosom

Segundo o coordenador, o conceito foi todo formado a partir de quatro questionamentos, ligados à traumas e incômodos que os próprios atores carregavam da infância, e também, de eventos recentes vividos por cada um. “A peça como um todo vai purgando dores individuais, e também, dores coletivas, isso tudo não tem nem como falar sozinho porque, a construção foi toda feita em grupo. Essa metodologia dos questionamentos – Sobre traumas da infância, algo que você acha que precisa ser discutido urgentemente – é um dos procedimentos para a construção de um espetáculo performático mesmo, aí você dá os apoios, os estímulos e eles constroem. Todo o material poético é de depoimentos ou de observação da vida, as cenas se constroem gradativamente…”, pontua Aguinaldo de Souza.

Utilizando também um fundo musical, ora dissonante, ora mais ‘ameno’, os momentos mais cruciais do espetáculo ganharam força na apresentação. Seja no peculiar trecho no qual atores ‘assoviam’ o hino nacional, em meio a uma certa ironia com figuras patriotas até sequências ambientadas por ruídos drones e até fúnebres. Os recuros são inúmeros; Há momentos por exemplo em que, todas as luzes do local são apagadas e a única iluminação vista é gerada por lanternas usadas pelos próprios atores, quase como um reforço visual da ideia do ‘tatear’ harmonias em meio à escuridão que assola os seres humanos. Qualquer semelhança com o atual momentos histórico (do mundo) talvez não sejam mera coincidência, não apenas em relação ao lado político, mas também, como uma forma de abrir os olhos para o reconhecimento da própria identidade e auto-entendimento em meio a um contexto de muitos questionamentos sobre temas como identidade, e a, repressão por parte de setores, algumas vezes, contrários à esse próprio entendimento. O profesor Aguinaldo de Souza cita o grupo mexicano La Pocha Nostra como uma referência importante do trabalho “Escolhemos uma estética, com esse estilo de encontro com as formas mais bizarras e agressivas retratadas na intervenção”, contou o coordenador à reportagem do Rubrosom.

Frente do prédio principal do Centro de Artes Cênicas (UEL) ocupado desde o último dia 24 - Foto: Bruno Leonel/Rubrosom
Frente do prédio principal do Centro de Artes Cênicas (UEL) ocupado desde o último dia 24 – Foto: Bruno Leonel/Rubrosom

Ocupação – Usando o formato de performance sequencial, em que as ações ocorrem em um espaço de tempo determinado, uma após a outra, a apresentação de ‘Desorganismo’ na última quinta, foi vista por cerca de 30 pessoas, dentro de uma das salas do Departamento de Artes Cênicas da UEL. O Centro foi o primeiro a ser ocupado (No dia 24 de Outubro) dentro do Centro de Educação, Comunicação e Artes (CECA) da UEL.  Dentre as principais pautas, o grupo manifestou repúdio às PEC 241, que eles citaram como “um ataque direto ao direto à saúde e educação, congelando os valores investidos nas áreas da educação” e a MP 746 Confira nota do Centro Acadêmico de Cênicas AQUI.  Atualmente, os centros de Comunicação, Artes, Pedagogia, Música e Pedagogia – Todos também do CECA, encontram-se ocupados. Atividades culturais estão sendo realizadas nos espaços durante toda a semana.

Elenco: Amarilis Irani, Alan Buck, Beatriz Sitta, Danilo Neiva, Gabriel Yuri Kondo, Heloisa Goulart, João Henrique Schiavo, José Henrique Silva, Luan Almeida Sales, Marco Antônio Paixão, Marina Rodrigues Quesada, Murilo de Andrade, Paulo Vitor Miranda e Rogério Francisco Costa.


Ficha Técnica
ILUMINAÇÃO:
O Grupo
SONOPLASTIA: Marco Antonio Paixão
COORDENAÇÃO: Aguinaldo de Souza


SERVIÇO
Desorganismo
Entrada: Produtos de limpeza ou higiene.
Data: 04/11 a 06/11, às 20h30.
Local: Divisão de Artes Cênicas – Casa de Cultura – UEL
Av. Celso Garcia Cid, 205

Peça Antes do Grito será apresentada hoje em Londrina

O espetáculo teatral ‘Antes do Grito’, com texto assinado por Rafaela Martins e direção de Mayara Dionísio, será encenado nesta quinta-feira (28) em Londrina. O evento, que acontece às 19h30 no auditório do Sesi/AML (Praça Primeiro de Maio) é parte da Mostra de Dramaturgia do SESI, que durante esta semana realizará quatro espetáculos inéditos, todos produzidos durante o Núcleo de Dramaturgia – Teatro Guaíra, realizado em 2015. Todas as apresentações tem entradas gratuitas – Ingressos devem ser retirados no local uma hora antes do evento.

Rafaela Martins (Azul) e Carol Alves atuam em 'Antes do Grito' - Foto: Allan Ferreira.
Rafaela Martins (Azul) e Carol Alves atuam em ‘Antes do Grito’ – Foto: Allan Ferreira.

O evento dá destaque à novos nomes da dramaturgia regional, vários dos autores estão realizando suas estreias em funções como direção e produção dos espetáculos que vão até o dia 30.

SOBRE A OBRA

A peça desta quinta conta a história de duas irmãs que convivem com os traumas e abusos sofridos na infância e que, em um processo de resgate destes momentos, conseguem promover um movimento de cura e libertação. O momento da fala que liberta e expurga a dor.

Presas a uma casa de vidro, as jovens circulam com cuidado na tentativa de preservar aquilo que as conecta com suas essências, mas, por fim, descobrem que confrontar seus medos e suas culpas é único modo de se entenderem como vítimas do abuso e do abandono. As dores jamais passarão, as cicatrizes sempre existirão, mas a superação é o único modo de seguirem em frente e se reconectarem consigo mesmas. “Minhas inspirações indiretas passam por Bergman (cineasta), Raduan Nassar (com Lavoura Arcaica), o realismo fantástico de Gabriel Garcia Marquez, além do pintor Balthus. Busquei também ler matérias e ver documentários sobre crianças e mulheres que sofreram abusos, essas matérias eram bastante abrangentes como uma sobre o número de meninas que se casam antes dos 15 anos no Brasil e um documentário sobre mulheres vítimas do Estado Islâmico. Isso tudo acabou sendo inspiração indireta porque a peça é sobre memória e fala, é uma criação ficcional e bem específica”, contou ao RubroSom, a autora do texto Rafaela Martins que também atua na peça.

O espetáculo 'Antes do Grito' será apresentado nos dias 28 e 30/04. Ele possui texto e direção de Rafaela Martins e atuação de Rafaela Martins e Carol Alves - Foto: Allan Ferreira.
O espetáculo ‘Antes do Grito’ será apresentado nos dias 28 e 30/04. Ele possui texto e direção de Rafaela Martins e atuação de Rafaela Martins e Carol Alves – Foto: Allan Ferreira.

Seguindo uma pesquisa sobre a infância e a sugestão do supervisor do curso, a dramaturga optou por abordar temáticas densas, como o abuso psicológico e sexual e o abandono na infância. Para cumprir tarefa tão desafiadora, o grupo desenvolveu estudos sobre memória e trauma e optou por uma abordagem delicada, expressando em arte a importância da superação dos traumas. “Antes do Grito” recria, assim, um universo dolorido, mas também permeado de delicadeza e punção de vida. “Quando comecei a fazer parte do Núcleo, já dividi com o Mauricio (Arruda Mendonça) meu desejo de contar uma história sobre duas irmãs, nessa altura nada ainda estava definido. Na verdade, na peça, elas são meninas mais ou menos da minha idade e da idade da Carol (que divide o palco comigo). Elas são adultas de vinte e poucos anos, mas que não conseguiram superar alguns traumas da infância e acabam entrando em um movimento de se comportarem como naquela época. A peça não decorre em um tempo definido e na verdade é como uma imersão na memória e na cabeça dessas meninas, é um processo interno e quase terapêutico pra elas porque é quando elas vão conseguir falar sobre determinadas coisas. Essas irmãs são duas, mas também uma, como que se uma se completasse na outra…”, contou Martins à nossa reportagem sobre parte do processo criativo que envolveu a ‘composição’ da ideia. 


FICHA TÉCNICA
Dramaturgia: Rafaela Martins
Orientação de Dramaturgia: Maurício Arruda Mendonça
Elenco: Carol Alves e Rafaela Martins
Direção: Mayara Dionisio
Figurinos: Morena Panciarelli
Música: Murilo Pajolla
Som: João Gabriel Alves
Iluminação: Gustavo Garcia
Fotos: Allan Ferreira
Entrada Gratuita (Retirar ingressos uma hora antes)

Mostra de teatro em Londrina chega à 12ª edição

Entre os dias 11 e 17 de abril, acontece na cidade 12ª Londrina Mostra de Teatro e Circo. Ao todo, entre oficinas e apresentações, mais de 20 atrações acontecem no evento que é promovido pelo Núcleo de Produção da Divisão de Artes Cênicas (DAC) da UEL em parceria com o Departamento de Música e Teatro (CECA) também da Universidade.

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Programação da mostra – Foto: Divulgação

A mostra conta com a presença de espetáculos do cenário londrinense, incluindo artistas em formação e graduados pelo curso de Artes Cênicas da Universidade Estadual de Londrina conforme programação. Os eventos acontecerão em espaços diversos como a Sala Principal da DAC (Av. Celso Garcia Cid. 205), e também em locais dentro da Universidade como a Praça do CECA ou no antigo ‘Cequinha’ da UEL (Veja programação a seguir).

Também serão proporcionadas duas oficinas para o público geral, mediante inscrições com vagas limitadas. Por fim, a programação prevê também um Cabaret de Variedades com números cômicos e/ou circenses.

Cabaret de Variedades

Artistas que tenham trabalhos especialmente voltados para o gênero cômico, ou ainda, que utilizem da linguagem circense podem participar do ‘Cabaret de Variedades’ que acontecerá no dia 16/04 às 20h. Interessados podem enviar currículo (Com resumo/sinopse do número ou apresentação) para dacoficina@gmail.com até o dia 08/04. O resultado será divulgado até o dia 13/04.


Contato

Informações podem ser obtidas na Divisão de Artes Cênicas (DAC) da UEL – Fone: (43) 3322-1030

Nudez rotulada: Entrevista com professor Aguinaldo de Souza

Uma intervenção cênica, com duração de apenas 25 minutos foi centro de algumas polêmicas recentemente na cidade de Londrina. Em fevereiro de 2016, 44 pessoas participaram – Entre eles atores profissionais, professores e estudantes – Realizaram uma ação dentro do Centro de Ciências Humanas (CCH) da UEL. Alguns deles, totalmente nus, tinham entre outros objetivos a ideia de simbolizar formas violência a qual o corpo se encontra exposto. Por volta das 18h30, todos caminharam em fila, já sem as roupas até o gramado do referido centro.

Segundo o professor, o futebol era um recurso usado nos campos de concentração para que os próprios prisioneiros se sentissem estimulados – Foto: Edward Fao

Três movimentos compuseram a ação: Todos se deitaram espalhados – Em uma analogia a forma como corpos eram organizados em situações de massacre ou holocausto – Em seguida houve um jogo de futebol entre os participantes (Também como uma analogia à forma como o jogo era praticado em campos de concentração durante a 2ª guerra) e por último, alguns dos participantes carregaram a outros pelos braços, como uma citação a forma como corpos eram carregados (Novamente em situações de massacre, como o caso do Presídio Carandiru no ano de 1992). Durou apenas 25 minutos, mas foi o bastante para que – Sobretudo em redes sociais – professores e alunos participantes fossem alvo de ataques em redes sociais.

O idealizador da coisa toda foi o professor Dr. Aguinaldo de Souza, que também, é docente no curso de Artes Cênicas na UEL. Mais recentemente, ele deu início à uma graduação de filosofia, como uma forma de agregar mais conhecimento em seu trabalho e prática. E foi justamente o trabalho de conclusão de curso, desenvolvido por Aguinaldo, que originou a intervenção; “A graduação em filosofia me ajuda a remexer um pouco no meu texto, o pessoal é bem criterioso quanto á escrita e a coisa da produção. Queria aprender outros modos de pensamento, outra articulação”, comenta Aguinaldo.

Manchas brancas na grama eram do cal, que foi jogado sobre os corpos de alguns dos atores (Como também eram feitos nos Campos de Concentração) - Foto: Edward Fao
Manchas brancas na grama eram do cal, que foi jogado sobre os corpos de alguns dos atores (Como também eram feitos nos Campos de Concentração) – Foto: Edward Fao

A performance ‘Para aqueles que ainda vão nascer’ (Como é chamada) é um dos elementos de seu final do curso intitulado “Compreender e imaginar: Texto e cena mediados por um estudo estético-político’.

Aproveitando um pouco da polêmica ligada ao trabalho, e também, pegando como mote as críticas que a intervenção recebeu, o Rubrosom conversou com o professor, afim de entender um pouco mais sobre seu processo criativo e como, em tempos de internet, certas críticas acabam sendo formadas, antes mesmo, de certas compreensões sobre o tema serem absorvidas.

Confira a entrevista:

Como foi a preparação para a intervenção? Os atores que participaram eram todos seus conhecidos?
Muitos não eram meus alunos. Eu fiz uma chamada aberta no facebook para todos que faziam teatro. Vieram várias pessoas da universidade e também de fora apareceram. Eu tive uma viagem uma semana antes, fui para o Chile fazer um trabalho com um grupo que eu pesquiso chamado ‘La Pocha Nostra’ – uma semana antes. Ai, quando eu voltei já estava bem-disposto a fazer, estava com uma cabeça bem internacional (risos). A gente se encontrou umas 18h na UEL, estávamos em 44 pessoas.

Mostrei várias fotos de mídia, do Carandiru que já estavam disponíveis – E também do campo de concentração de Auschwitz que eu tinha trazido – Todo mundo já veio com alguma imagem na cabeça. Quando a gente se encontrou é a gente. Expliquei que iríamos representar pessoas descendo do trem, tirar a roupa rapidamente (Que gera constrangimento) – A primeira imagem era uma fila longa de pessoas nuas indo para o campo de concentração. Era um contexto muito pesado, isso acontecia com adulto, criança, idosos, todo mundo junto.

Nós saímos em fila indiana – nós povoamos o gramado na mesma posição que os condenados do Carandiru ficaram. Preenchemos o pátio (Semelhante ao cartaz do filme Carandiru) – As roupas foram todas colocadas em saco de lixo – Uma das pessoas tirou uma bola de dentro de um saco e então começaram a jogar futebol (Na segunda guerra alguns prisioneiros jogavam durante tempo livre) – Do futebol, quem cansasse ia se dando conta e se jogando no chão.

Ficaram vários corpos beges e negros espalhados pelo gramado. Visualmente foi bem interessante. Em um dado momento, uns começaram a carregar os outros (Como uma analogia aos mortos sendo carregados no Carandiru). Nada foi combinado, não combinamos quem iria carregar, quem iria jogar – A coisa foi toda acontecendo na hora. Eu levantei para começar a carregar as pessoas, mas, alguns deles estavam já carregando, foi meio cansativo, o negócio todo durou 25 minutos (Havia uma pessoa marcando o tempo). (Segundo o professor, pessoas que assistiam ao redor, ficaram em silêncio total).

Depois que terminou tudo, fui para a defesa do TCC (Em uma sala ali próxima) …. e Passei! Um dos professores falou que só não a performance o trabalho escrito de ‘divisor de águas’ porque ele não sabe se irá ocorrer mais depois – Mas foi muito legal, ele falou com certeza que era um marco.

Qual foi a grande ‘consideração’ que você tirou após o trabalho ter sido feito?

Este espetáculo e essa performance, conseguiram fazer eu me sentir honesto em atender a urgência do meu tema no campo da arte. Despois que eu vi todos os desdobramentos da intervenção eu vi como ela era necessária. O tipo de irritação que apareceu é de gente descontextualizada. Parece que nós não estávamos cumprindo o papel de mostrar, ou como filósofo, de esclarecer sobre coisas importantes…. O que me ficou sobre tudo isso, nem é a incapacidade, talvez de reconhecer signos, ou as pessoas, na solidão do lar xingar tudo o que elas não conhecem…. Então, que bom que oportunizamos essa possibilidade. Acho que, no fundo, a liberdade foi questionada. No fundo, o grande problema é, cada voz, mesmo as pessoas que também defenderam a obra, às vezes , também tinham um discurso autoritário e impositivo. O essencial aqui é a liberdade de ver e de não ver (Ou fazer e não fazer). Todo mundo começou a usar a negativa de uma forma muito forte – Uma moça escreveu que ‘Não sou obrigada a sair da sala de aula e ver isso’ – Claro que não é, ela saiu da sala, viu 25 minutos de performance – Ela esclarece toda a falta de liberdade que as pessoas tem. Você pode ficar chocado, até criticar, mas não pode dizer que isso não deve acontecer.

Toda a arte cênica tem essa possibilidade de impacto, por conta da presença, só que, ela é muito resguardada né? A gente tem a linguagem da performance (Já desde os anos 70) – Ela é indefesa e é violenta ao mesmo tempo. A performance não tem o lugar dela, ela precisa estar onde as pessoas estão. O teatro de rua estabelece um palco, ele imagina que aquele lugar onde ele está é outro lugar, ele imagina um outro espaço, ele transforma aquilo em outro lugar. A performance já não tem isso…. Não tem personagem.

Acho que são tantas questões anteriores (à intervenção) – São jovens que entenderam uma proposta e colocaram o próprio corpo em risco perante uma sociedade inteira. Tem que aplaudir essas pessoas. O mundo está muito ruim, mas, não foram eles que fizeram…. Os verdadeiros responsáveis estão tentando impedir eles de pensar. (O professor lembra uma citação de Hannah Arendt que influenciou o trabalho final) ‘Todo o mal é banal, o bem precisa ser radical e profundo pra existir, mas, o mal é fácil… ‘

Imagino que, como pesquisador, você não viu a coisa da crítica como um fato isolado certo? Outros fatores talvez teriam contribuído para isso?

Eu acho que sim! O problema é talvez você olhar para atores e atrizes que se desnudam, em um espaço universitário, para representar figuras e temas, e achar que está vendo algo pornográfico. Ai é uma perversão que está no receptor, não está na obra. Se eu dirigi uma performance, que dialogue com a pornografia, com temas como o sadomasoquista (Que são considerados obscuros) eu assumiria isso, e veria um espaço mais adequado para expor tal tema. Embora, não sei, acho que passeatas de nudez deveriam acontecer toda a semana, para que, pessoas pudessem desobstruir sua visão do corpo. Não ficar apenas ofendido com um seio, e esse tipo de coisa….

Seu trabalho dialoga muito com a coisa da violência…. Você chegou a conhecer um campo de concentração, como foi a experiência?

O aspecto que mais me deu raiva, desespero, foi a limpeza do lugar. É tudo muito industrial. Na câmara de gás eram mortos cerca de 200 por vez, pra serem incinerados eram colocados de um por um…. Os próprios prisioneiros precisavam tirar os corpos depois. Era tudo muito organizado, muito industrial. A gente com a nossa criação católica tem muito a crença de que o inferno é sujo, caótico, mas não, é incrível como é um lugar limpo.

Eu vi uma entrevista sua (Sobre a performance) sobre a coisa da ‘Atitude em relação ao outro, precisa ser de compreensão’ e, definitivamente, não foi assim como grande parte das pessoas (Que fizeram críticas negativas) viram né?

Diretamente, não me chegou nada, eu tive que olhar nas redes sociais…. O círculo de pessoas com quem eu convivo é mais ou menos preparado para esse tipo de experiência. Muita gente, que eu considero a opinião, se manifestaram a favor, ou não se manifestaram por não estar no campo da ação delas. Muita gente que reagiu mal a ação, eu vejo que é por desconhecimento, por falta de experiência com isso, o senso comum não oferece isso….
Houve críticas muito positivas também. Teve por exemplo a mãe de uma aluna que me mandou uma mensagem, agradecendo, porque achou o trabalho importante. Ela estava orgulhosa de que a filha dela havia participado da ação. Você vê, e ela é uma pessoa muito simples, o que prova que não é preciso uma pessoa ter um nível alto de instrução para entender a dimensão da coisa.

Você diria que as críticas só reforçam o próprio motivo de precisar ser feito isso?
Com certeza! Uma professora, de outra cidade, me escreveu e falou que eu deveria fazer toda a semana isso, por que, só depois de saturar, essas pessoas irão encarar com mais naturalidade. As pessoas são tão fechadas que isso assusta…. E tem um fundo de verdade porque a gente vive em uma estrutura muito reprimida. Eu entendo que as pessoas tenham resistência, mas do ponto de vista da liberdade, o fato de eu não querer, não pode me impedir o outro de fazer. As pessoas tem pouca experiência em respeitar o direito alheio, eu quero interferir na sua religião, na sua alimentação, no seu modo de vestir…. Eu não preciso tentar te transformar em outra coisa? É muito complicado isso de cercear a liberdade do outro.

Outra coisa grave (Da intervenção) é a fabulação de outros conteúdos, que não estão na minha peça, mas que está no olhar de quem julgou o trabalho. Um jornalista de Londrina fez um comentário ‘estapafúrdio’, sei lá, ele ouviu falar dos ‘peladões’ e depois ouviu falar que eles estavam se defendendo (Dizendo que tinham feito um trabalho sobre o holocausto), mas ele não sabe de nada…. Isso é perigoso! Outros jornalistas entraram em contato, me mandaram um e-mail, e antes de se manifestar eles leram e se informaram sobre. Eles até acabaram fazendo materiais interessantes, uma colunista publicou um desabafo sobre a questão das pessoas verem só a nudez em um trabalho que estava justificado por outras formas, foi bem interessante.

No dia, alguém muito inadvertido tirou uma foto e começou a mandar pra todo mundo, dali, ai, alguém recebeu uma foto e divulgou por ai – Sendo que muito pouco se questionou sobre o motivo de estarem nus. Algumas pessoas até inventaram histórias, ela não está induzindo sexualidade ali.

O problema maior é as pessoas falarem ‘Não pode fazer’ – Se o pessoal quiser fazer uma roda de dança nus, eu vou achar um exercício de liberdade e de transgressão e de desafio corporal. Eu não irei ver gente pornográfica ou que esteja abusando do espaço. Alguns podem achar absurdo, mas isso não autoriza alguém a proibir algo.