Viva Elis – Há 25 anos evento em Londrina celebra obra e trajetória da cantora

Shows intimistas, público envolvido e cantores inspirados em performances que não apenas relembram a trajetória da cantora Elis Regina, mas ainda, conseguem dar vida nova a canções que, ao longo dos anos, marcaram a vida e as histórias de milhares de pessoas. Assim é o clima do projeto Viva Elis, realizado sempre no mês de janeiro, no Bar Valentino e que há 25 anos reserva todas as primeiras quintas-feiras do ano para relembrar a obra da cantora (1945-1982).

As cantoras Lia Cordoni e Neuza Pinheiro no Projeto Viva Elis, durante o show Veloz como a própria Voz ( janeiro 2000) - Foto: Acervo Lia Cordoni
As cantoras Lia Cordoni e Neuza Pinheiro no Projeto Viva Elis, durante o show Veloz como a própria Voz ( janeiro 2000) – Foto: Acervo Lia Cordoni

A série de shows, iniciada na primeira quinta-feira do mês  trará para o palco da casa artistas locais reinterpretando o repertório da artista. Em 2017 completam-se vinte seis temporadas ininterruptas do evento, sempre no mês de janeiro. “Homenagem no mês da morte é meio estranho né? Mas foi o que aconteceu (Risos). Deixamos assim, e virou tradição, o lance de você estar em um estabelecimento que já tem idade, tem isso, tudo vai completando aniversários. De 10 anos, 20 anos, como outros projetos aqui do bar…. É o projeto mais antigo em atividade hoje no Valentino, de início a ideia foi movida pela saudade da cantora mesmo”, conta um dos sócios do espaço Valdomiro Chammé, que é também o responsável pelo projeto.

Nesta última quinta-feira de Viva Elis 2017, a dupla Heloísa Trida e Vinicius Zanin se apresenta no Valentino - Foto: Divulgação
Nesta última quinta-feira de Viva Elis 2017, a dupla Heloísa Trida e Vinicius Zanin se apresenta no Valentino – Foto: Divulgação

“Encaro a proposta artistica da Elis como uma proposta de mudanças mesmo nas coisas mais simples, de crítica diante do que esta aí”, afirma a cantora Heloísa Trida que, se apresenta nesta quinta (26) acompanhada do cantor Vinicius Zanin. A dupla Vinicius Zanin e Heloisa Trida se consolidou durante as apresentações do Almanaque Conta ‘Histórias de um Bar’. Acompanhados por Gabriel Zara (baixo), Fabricio Martins (piano) e Bruno Cotrin (bateria), a dupla apresenta o repertorio mais longo, com 26 títulos. A cantora convidada é outra veterana do projeto, a londrinense Rakelly Calliari, na sua quinta participação no Viva Elis.

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Neste ano, a quantidade de cantoras, relativamente novas na cena – Algumas sequer eram nascidas quando o projeto começou em 1992, é um dos destaques. “É um projeto de fôlego, sempre foi muito singelo, nunca contamos com uma superprodução, era basicamente ver quem eram os artistas que participariam e muita gente abraçava pela originalidade, e também pelo repertório que é cada vez menos conhecido do público mais novo… Então, é uma coisa que pegou e foi acontecendo de forma despretensiosa”, comentou Chammé à reportagem do Rubrosom.

A paixão por Elis era compartilhada pelo coro cênico Chaminé Batom,  na época composto por Simone Mazzer, Carlinhos Rodrigues, Elton Mello, Silvio Ribeiro e Ricardo Grings e o convite para o primeiro show não poderia ser a outros artistas. Segundo Chammé, o grupo aceitou na hora e o show teve que ser repetido nas semanas seguintes, já como um grande êxito, relembra Chammé. Animados com a reposta do publico, o formato foi novamente proposto em 1993 e além das novas releituras do Chaminé Batom, outras cantoras passaram a participar do evento. Segundo Chammé, desde o início, o projeto teve vários nomes diferentes; “Homenagem à Elis”, “Lembra Elis”, “Especial Elis Regina” e desde 2002, se chama “Viva Elis”.

Segundo Chammé, são sempre chamadas cantoras que algum amigo indica, ou mesmo, cantoras que ele teve a oportunidade de ver ao vivo. “A Heloísa, junto com o Vinícius Zanin, por exemplo, participaram de um projeto cênico musical que a Funcart fez, eu os vi atuando na serie ‘Almanaque’ que acontece aqui, eles tem uma presença muito interessante de palco. Tem participações também como a Rakelly Calliari e a Gisele de Almeida, que entraram em um momento que nós achamos para homenagear pessoas que já fizeram muito pelo Viva Elis. Nem se fala da Simone Mazzer e do pessoal do Chaminé Batom que praticamente começaram o evento…Tem a Cristina Tonin também que representa o pessoal do Valentino antigo (Quando o bar ainda era na Avenida Bandeirantes, até meados de 2005).

Valdomiro Chammé com um cartaz de divulgação do Viva Elis do ano de 2003, ao lado do material de divulgação do Viva Elis 25 anos - Foto: Bruno Leonel/Rurosom
Valdomiro Chammé com um cartaz de divulgação do Viva Elis do ano de 2003, ao lado do material de divulgação do Viva Elis 25 anos – Foto: Bruno Leonel/Rurosom

Segundo o organizador, a ideia é que o próprio cantor convidado tenha espaço para escolher o repretório e explorar sonoridades. “Não temos nenhuma pretensão que o Viva Elisa seja uma apresentação cover da cantora, nunca foi… A ideia é a pessoa vestir a roupa, mas fazer o seu som! Cada artista faz em cima da sua preferência, a pessoa fazer só sambas, blues, ou rock, o repertório da Elis era muito variado. Já tivemos espetáculos de teatro com o disco ‘Falso Brilhante’ de 1976 (Tocado na íntegra). Deixo sempre o pessoal a vontade…. Tudo isso vem ‘abrilhantar’ o projeto. Teve um ano em que a Simone cantou ‘Black is Beautiful’, e as outras três cantoras, nas semanas seguintes, também cantaram. E no entanto cada uma foi de um jeito e apresentações muito boas, cada uma com uma energia e uma verve…”, pontua Chammé

Nos Palcos – Como grande fã da cantora, Chammé relembrou também algumas das vezes em que pode conferir Elis Regina ao vivo; “A primeira vez em que a vi foi na cidade de Presidente Prudente, por volta de 1975/1976, vi ela em São Paulo, com o show Falso Brilhante, em 1978 no Teatro Bandeirantes que foi um verdadeiro marco de produção de palco, com produção do Naum Alves de Sousa, foi um grande marco de produção de palco…”, contou Chammé à reportagem.

Por fim, assisti um show da Elis em Londrina, com o show do ‘Essa Mulher’ no Projeto Pixinguinha, no Cine Teatro Ouro Verde, por volta de 1981…. Uma apresentação muito marcante também”, se emociona Valdomiro.

Futuro – Ao pensar na trajetória do espetáculo, impossível não considerar os ‘próximos passos’ do projeto. Segundo Chammé, a ideia é dar continuidade às apresentações que, apesar de não serem de um repertório tão novo, ainda emocionam bastante. “Já tivemos oportunidades de fazer o evento em outras cidades, como Maringá. Mas não é tão simples, a pessoa as vezes não entende direito o que é o evento, mas, um dia pode ocorrer. Não tenho pretensão de fazer nada de alcance nacional. Já sugeriram que eu informasse aos familiares e herdeiros da Elis sobre o projeto, mas não tenho essa pretensão, se naturalmente isso ocorrer legal, mas não quero que uma coisa se sobreponha a outra, o mais importante é que aconteçam os shows, low-profile mesmo para um público reduzido e esse tipo de coisa”, contou á reportagem.


Elis Regina – A discografia de Elis Regina se estende por mais de 30 álbuns, entre discos gravados em estúdio, ao vivo e Eps, isso sem contar os singles, que seriam mais de 20. Com tanto material à disposição e a longevidade do “Viva Elis”, os artistas e músicos proporcionaram ao público um passeio pelas mais diferentes vertentes desta vasta obra. “Graças aos 25 anos de Viva Elis, os músicos tiveram tempo e criatividade para explorar todo o colorido da discografia da Elis. Assisti shows focados nos sambas, baladas, rock, blues, boleros, com releituras rap e até um espetáculo cênico!” conta Chammé. Para o empresário, um dos maiores presentes ao longo desse um quarto de século do Viva Elis é perceber que o evento é sempre aguardados pelos eternos fãs e, de modo surpreendente, por muita gente nova. “Com o Viva Elis, gente nova tem a oportunidade de conhecer e curtir o vasto repertório de Elis Regina, através das cantoras, cantores e músicos que se dedicam, exclusivamente  por amor, a este belo projeto”, completa.


SERVIÇO

Viva Elis – 25 anos
Todas as quintas-feiras de janeiro de 2017, às 21 horas – Confira programação completa no Site – Couvert: R$ 15,00

Terça Tilt – Há 13 anos evento reúne fãs de música no Valentino

Aqueles hits de sempre aliados à ilustres faixas desconhecidas, longas filas e eventuais surpresas que fazem uma noite toda valer a pena. Neste mês, a Terça Tilt, uma das festas mais conhecidas e notórias realizadas em Londrina, está completando 13 anos de existência. O projeto que inicialmente começou como uma reunião entre amigos jornalistas – Que tinham a ideia de tocar rock alternativo, indie e outros estilos populares no início dos anos 2000 – acabou resistindo ao tempo e se tornando um dos eventos mais celebrados e duradouros da cidade. Realizado sempre no meio de semana, em um dia totalmente improvável para que o grande público compareça e fique até tarde, o evento acabou contrariando diversas expectativas e resistindo! Mesmo após mudanças (Veja a seguir) acabou perdurando como um dos eventos mais emblemáticos da cidade.

Raridade! Fotos de uma Terça Tilt de Dezembro de 2004, uma das primeiras nas quais Vanessa 'Gummo' Virginia discotecou, ainda no antigo endereço do Bar Valentino - Foto: Acervo Vanessa Virgínia
Raridade! Fotos de uma Terça Tilt de Dezembro de 2004, uma das primeiras nas quais Vanessa ‘Gummo’ Virginia discotecou, ainda no antigo endereço do Bar Valentino – Foto: Acervo Vanessa Virgínia

Segundo o fundador da festa, Nelson Sato, a ideia do evento ocorreu após uma bem sucedida festa realizada ainda no ano de 2003, na Usina Cultural em Londrina, com discotecagem alternativa. “A festa surgiu em Dezembro daquele ano, a partir de um evento, feito apenas com jornalistas na Usina, na época compareceram muitas pessoas que trabalhavam na Folha de Londrina, no antigo JL, na RPC e etc… Na época tocaram pessoas como a Janaína Ávila, o Fábio Galão, e quem foi acabou gostando muito. Depois disso, tive a ideia de fazer um evento parecido, em algum espaço da cidade, chamando o Galão para ser o DJ residente, tocando o tipo de som que a gente curtia, nessa praia mais de rock, indie, alternativo – Era um som que estava bastante em alta na época, com nomes como Killers, Strokes – e não tinha lugar em Londrina onde isso tocava. Eu na época ia bastante ao Valentino e sugeri ao pessoal a ideia… O único dia possível seria nas terças! De início, eu achei que ia ser complicado, mas, como não tinha outro dia fizemos, e acabou comparecendo um público bem legal, gente que gostava desse estilo de som.Divulgamos os cartazes em várias lojas e espaços da cidade e seguimos…Só tempos depois, quando fizemos a Tilt de um ano, em 2004, notamos como o negócio tinha sido fenômeno de público mesmo. Além do bar lotado, ficou gente pra fora”, relembra Sato, que até hoje sempre inicia as discotecagens no primeiro horário. Neste dia, além da tradicional discotecagem, houve também show com a banda Mudcracks.

Na foto de cima, Gi Bedendo (Uma das djs populares dos primórdios da tilt) em uma tilt de 2004 e ao lado uma foto cle uma das tilts realizadas no mesmo ano - Foto: Acervo Vanessa Virginia.
Na foto de cima, Gi Bedendo (Uma das djs populares dos primórdios da tilt) em uma tilt de 2004 e ao lado uma foto tirada no mesmo ano (Vanessa Virginia é a de cinza) – Foto: Acervo Vanessa Virginia.

Com o tempo, a festa acabou ganhando alguns detalhes que se tornariam marca com o passar do tempo, como a rotatividade de djs, sempre com pessoas novatas comandando o som do bar. Dessa fase inicial, (e que também acabou tocando na festa durante muitos anos) Vanessa ‘Gummo’ Virgínia relembra algumas histórias da época “Encontrei por acaso o Sato na rua, eu havia voltado para a cidade há poucos meses, e foi quando ele falou da festa. Fui com algumas amigas e de cara adorei o clima intimista de terça, no velho Valentino. Fumaça, cerveja gelada, muita conversa e ao fundo uma gama de musicas interessantes tocando. No meio da noite, veio o primeiro convite: O Sato dizendo que queria muito ter uma noite só com meninas discotecando. Deu medo, claro. Mas eu já havia trabalhado uma loja de discos, então, dar play em sons que o povo gostava, para mim, era razoavelmente fácil. Em 13 dezembro 2004 fiz a primeira discotecagem na noite. A tal menina não apareceu, e tive que me virar umas duas horas e meia, até que ela desse o ar da graça. O ambiente ali, atras do balcão, com os garçons passando a toda hora de um lado para outro, pedindo licença ou não; o publico gritando que o som tava baixo, ou muito bom, ou até me confundindo com alguma atendente e pedindo cerveja; os papeis surgindo do nada com nome de musica ou nome de banda para rolar; Era o mais comum que tínhamos nas primeiras festas Tilt”, relembra Vanessa. Ela, aliás, cedeu algumas fotos do acervo pessoal para a matéria.

Fotos de duas terça-tilts no ano de 2006, já no novo endereço do Bar Valentino - Foto: Acervo Vanessa Virginia
Fotos de duas terça-tilts no ano de 2006, já no novo endereço do Bar Valentino – Foto: Acervo Vanessa Virginia

Segundo Vanessa, nessa época, a música era ainda o grande atrativo da festa. O público que, inicialmente, comparecia era muito ligado ao estilo de som que tocava, talvez, pela raridade de espaços dedicados ao gênero até então. “A festa celebrava essencialmente os bons sons. Estávamos num mundo onde Strokes, Killers, White Stripes ainda era bandas novas. A internet não era tão rápida para termos todos os discos dos anos 90’s baixados. E o que tínhamos era ouvido exaustivamente, tornando-se clássicos, só por esta razão. E continuou assim. Quase dez anos depois, eu ainda me sentia bem tocando na festa…” contou Virginia à nossa reportagem.

Mudanças –  O evento seguiu em alta durante a era do ‘antigo endereço’ do Bar, até que, em 2005, o espaço foi transferido para a Avenida Faria Lima. A mudança, segundo Sato, impactou também no público que frequentava o local. “Ali mudou muito, ampliou demais o público. Com o tempo, essa plateia (Da Tilt) foi mudando, notamos que não era mais gente só que ia pra ouvir o indie rock, aos poucos, fomos mudando o estilo. No início não tinha espaço pra nenhum pancadão, funk e outros estilos, era radical o negócio, e ai, com a mudança de perfil das pessoas, quem comparecia passou a exigir outro tipo de música….” contou Sato que, com o passar dos anos viu a Tilt abraçando novas vertentes musicais como o eletro, o pop e até eventuais funks brasileiros.

Imagens de Terças Tilt realizadas entre 2006/2008 já no novo endereço do bar (Detalhe para o CDj ainda sem a 'bancada' de apoio) - Foto: Acervo Vanessa Virginia
Imagens de Terças Tilt realizadas entre 2006/2008 já no novo endereço do bar (Detalhe para o CDj ainda sem a ‘bancada’ de apoio) – Foto: Acervo Vanessa Virginia

A solução, veio exatamente com a rotatividade dos Djs. Depois do indie rock, a saída foi buscar novas pessoas para tocar e nomes que fossem mais ligados á novas músicas que o público gostava de ouvir. “Como a festa é predominantemente universitária, foca no pessoal de 18 a 30 anos, elas tem um período na vida em que saem mais para os bares. Hoje o estilo mudou muito, esse som rock do início dos anos 2000 não é mais hegemônico, não é mais a música que todo mundo curte, logo, a festa mudou bastante, o repertório ficou bem eclético…” contou Nelson.

Uma imagem mais recente da Terça Tilt (de 2010) já com o Bar Valentino após a reforma - Foto: Acervo Londripost
Uma imagem mais recente da Terça Tilt (de 2010) já com o Bar Valentino após a reforma – Foto: Acervo Londripost

Longevidade – Em meio a um contexto (E cidade) onde bares e projetos musicais não costumam ter uma longevidade, para Sato, o fato da Tilt ter durado já por tantos anos tem a ver muito com a adaptação da proposta a novos públicos “Sempre buscamos também colocar pessoas novas para tocar, o próprio pessoal que frequenta a festa sempre pede pra tocar e isso vai movimentando o espaço. Muita gente começou a tocar na Tilt e, isso acabou formando Djs para outros espaços, gente que hoje em dia trabalha com isso tocando em outras casas noturnas”, contou Sato. Segundo ele, dar continuidade à proposta da Tilt é a principal meta para o futuro. “Em cinco anos, gente que estava nascendo quando fizemos a primeira festa em 2003 vai estar completando 18 anos, e indo ao bar, é muito louco isso”, brinca Sato.