Nudez rotulada: Entrevista com professor Aguinaldo de Souza

Uma intervenção cênica, com duração de apenas 25 minutos foi centro de algumas polêmicas recentemente na cidade de Londrina. Em fevereiro de 2016, 44 pessoas participaram – Entre eles atores profissionais, professores e estudantes – Realizaram uma ação dentro do Centro de Ciências Humanas (CCH) da UEL. Alguns deles, totalmente nus, tinham entre outros objetivos a ideia de simbolizar formas violência a qual o corpo se encontra exposto. Por volta das 18h30, todos caminharam em fila, já sem as roupas até o gramado do referido centro.

Segundo o professor, o futebol era um recurso usado nos campos de concentração para que os próprios prisioneiros se sentissem estimulados – Foto: Edward Fao

Três movimentos compuseram a ação: Todos se deitaram espalhados – Em uma analogia a forma como corpos eram organizados em situações de massacre ou holocausto – Em seguida houve um jogo de futebol entre os participantes (Também como uma analogia à forma como o jogo era praticado em campos de concentração durante a 2ª guerra) e por último, alguns dos participantes carregaram a outros pelos braços, como uma citação a forma como corpos eram carregados (Novamente em situações de massacre, como o caso do Presídio Carandiru no ano de 1992). Durou apenas 25 minutos, mas foi o bastante para que – Sobretudo em redes sociais – professores e alunos participantes fossem alvo de ataques em redes sociais.

O idealizador da coisa toda foi o professor Dr. Aguinaldo de Souza, que também, é docente no curso de Artes Cênicas na UEL. Mais recentemente, ele deu início à uma graduação de filosofia, como uma forma de agregar mais conhecimento em seu trabalho e prática. E foi justamente o trabalho de conclusão de curso, desenvolvido por Aguinaldo, que originou a intervenção; “A graduação em filosofia me ajuda a remexer um pouco no meu texto, o pessoal é bem criterioso quanto á escrita e a coisa da produção. Queria aprender outros modos de pensamento, outra articulação”, comenta Aguinaldo.

Manchas brancas na grama eram do cal, que foi jogado sobre os corpos de alguns dos atores (Como também eram feitos nos Campos de Concentração) - Foto: Edward Fao
Manchas brancas na grama eram do cal, que foi jogado sobre os corpos de alguns dos atores (Como também eram feitos nos Campos de Concentração) – Foto: Edward Fao

A performance ‘Para aqueles que ainda vão nascer’ (Como é chamada) é um dos elementos de seu final do curso intitulado “Compreender e imaginar: Texto e cena mediados por um estudo estético-político’.

Aproveitando um pouco da polêmica ligada ao trabalho, e também, pegando como mote as críticas que a intervenção recebeu, o Rubrosom conversou com o professor, afim de entender um pouco mais sobre seu processo criativo e como, em tempos de internet, certas críticas acabam sendo formadas, antes mesmo, de certas compreensões sobre o tema serem absorvidas.

Confira a entrevista:

Como foi a preparação para a intervenção? Os atores que participaram eram todos seus conhecidos?
Muitos não eram meus alunos. Eu fiz uma chamada aberta no facebook para todos que faziam teatro. Vieram várias pessoas da universidade e também de fora apareceram. Eu tive uma viagem uma semana antes, fui para o Chile fazer um trabalho com um grupo que eu pesquiso chamado ‘La Pocha Nostra’ – uma semana antes. Ai, quando eu voltei já estava bem-disposto a fazer, estava com uma cabeça bem internacional (risos). A gente se encontrou umas 18h na UEL, estávamos em 44 pessoas.

Mostrei várias fotos de mídia, do Carandiru que já estavam disponíveis – E também do campo de concentração de Auschwitz que eu tinha trazido – Todo mundo já veio com alguma imagem na cabeça. Quando a gente se encontrou é a gente. Expliquei que iríamos representar pessoas descendo do trem, tirar a roupa rapidamente (Que gera constrangimento) – A primeira imagem era uma fila longa de pessoas nuas indo para o campo de concentração. Era um contexto muito pesado, isso acontecia com adulto, criança, idosos, todo mundo junto.

Nós saímos em fila indiana – nós povoamos o gramado na mesma posição que os condenados do Carandiru ficaram. Preenchemos o pátio (Semelhante ao cartaz do filme Carandiru) – As roupas foram todas colocadas em saco de lixo – Uma das pessoas tirou uma bola de dentro de um saco e então começaram a jogar futebol (Na segunda guerra alguns prisioneiros jogavam durante tempo livre) – Do futebol, quem cansasse ia se dando conta e se jogando no chão.

Ficaram vários corpos beges e negros espalhados pelo gramado. Visualmente foi bem interessante. Em um dado momento, uns começaram a carregar os outros (Como uma analogia aos mortos sendo carregados no Carandiru). Nada foi combinado, não combinamos quem iria carregar, quem iria jogar – A coisa foi toda acontecendo na hora. Eu levantei para começar a carregar as pessoas, mas, alguns deles estavam já carregando, foi meio cansativo, o negócio todo durou 25 minutos (Havia uma pessoa marcando o tempo). (Segundo o professor, pessoas que assistiam ao redor, ficaram em silêncio total).

Depois que terminou tudo, fui para a defesa do TCC (Em uma sala ali próxima) …. e Passei! Um dos professores falou que só não a performance o trabalho escrito de ‘divisor de águas’ porque ele não sabe se irá ocorrer mais depois – Mas foi muito legal, ele falou com certeza que era um marco.

Qual foi a grande ‘consideração’ que você tirou após o trabalho ter sido feito?

Este espetáculo e essa performance, conseguiram fazer eu me sentir honesto em atender a urgência do meu tema no campo da arte. Despois que eu vi todos os desdobramentos da intervenção eu vi como ela era necessária. O tipo de irritação que apareceu é de gente descontextualizada. Parece que nós não estávamos cumprindo o papel de mostrar, ou como filósofo, de esclarecer sobre coisas importantes…. O que me ficou sobre tudo isso, nem é a incapacidade, talvez de reconhecer signos, ou as pessoas, na solidão do lar xingar tudo o que elas não conhecem…. Então, que bom que oportunizamos essa possibilidade. Acho que, no fundo, a liberdade foi questionada. No fundo, o grande problema é, cada voz, mesmo as pessoas que também defenderam a obra, às vezes , também tinham um discurso autoritário e impositivo. O essencial aqui é a liberdade de ver e de não ver (Ou fazer e não fazer). Todo mundo começou a usar a negativa de uma forma muito forte – Uma moça escreveu que ‘Não sou obrigada a sair da sala de aula e ver isso’ – Claro que não é, ela saiu da sala, viu 25 minutos de performance – Ela esclarece toda a falta de liberdade que as pessoas tem. Você pode ficar chocado, até criticar, mas não pode dizer que isso não deve acontecer.

Toda a arte cênica tem essa possibilidade de impacto, por conta da presença, só que, ela é muito resguardada né? A gente tem a linguagem da performance (Já desde os anos 70) – Ela é indefesa e é violenta ao mesmo tempo. A performance não tem o lugar dela, ela precisa estar onde as pessoas estão. O teatro de rua estabelece um palco, ele imagina que aquele lugar onde ele está é outro lugar, ele imagina um outro espaço, ele transforma aquilo em outro lugar. A performance já não tem isso…. Não tem personagem.

Acho que são tantas questões anteriores (à intervenção) – São jovens que entenderam uma proposta e colocaram o próprio corpo em risco perante uma sociedade inteira. Tem que aplaudir essas pessoas. O mundo está muito ruim, mas, não foram eles que fizeram…. Os verdadeiros responsáveis estão tentando impedir eles de pensar. (O professor lembra uma citação de Hannah Arendt que influenciou o trabalho final) ‘Todo o mal é banal, o bem precisa ser radical e profundo pra existir, mas, o mal é fácil… ‘

Imagino que, como pesquisador, você não viu a coisa da crítica como um fato isolado certo? Outros fatores talvez teriam contribuído para isso?

Eu acho que sim! O problema é talvez você olhar para atores e atrizes que se desnudam, em um espaço universitário, para representar figuras e temas, e achar que está vendo algo pornográfico. Ai é uma perversão que está no receptor, não está na obra. Se eu dirigi uma performance, que dialogue com a pornografia, com temas como o sadomasoquista (Que são considerados obscuros) eu assumiria isso, e veria um espaço mais adequado para expor tal tema. Embora, não sei, acho que passeatas de nudez deveriam acontecer toda a semana, para que, pessoas pudessem desobstruir sua visão do corpo. Não ficar apenas ofendido com um seio, e esse tipo de coisa….

Seu trabalho dialoga muito com a coisa da violência…. Você chegou a conhecer um campo de concentração, como foi a experiência?

O aspecto que mais me deu raiva, desespero, foi a limpeza do lugar. É tudo muito industrial. Na câmara de gás eram mortos cerca de 200 por vez, pra serem incinerados eram colocados de um por um…. Os próprios prisioneiros precisavam tirar os corpos depois. Era tudo muito organizado, muito industrial. A gente com a nossa criação católica tem muito a crença de que o inferno é sujo, caótico, mas não, é incrível como é um lugar limpo.

Eu vi uma entrevista sua (Sobre a performance) sobre a coisa da ‘Atitude em relação ao outro, precisa ser de compreensão’ e, definitivamente, não foi assim como grande parte das pessoas (Que fizeram críticas negativas) viram né?

Diretamente, não me chegou nada, eu tive que olhar nas redes sociais…. O círculo de pessoas com quem eu convivo é mais ou menos preparado para esse tipo de experiência. Muita gente, que eu considero a opinião, se manifestaram a favor, ou não se manifestaram por não estar no campo da ação delas. Muita gente que reagiu mal a ação, eu vejo que é por desconhecimento, por falta de experiência com isso, o senso comum não oferece isso….
Houve críticas muito positivas também. Teve por exemplo a mãe de uma aluna que me mandou uma mensagem, agradecendo, porque achou o trabalho importante. Ela estava orgulhosa de que a filha dela havia participado da ação. Você vê, e ela é uma pessoa muito simples, o que prova que não é preciso uma pessoa ter um nível alto de instrução para entender a dimensão da coisa.

Você diria que as críticas só reforçam o próprio motivo de precisar ser feito isso?
Com certeza! Uma professora, de outra cidade, me escreveu e falou que eu deveria fazer toda a semana isso, por que, só depois de saturar, essas pessoas irão encarar com mais naturalidade. As pessoas são tão fechadas que isso assusta…. E tem um fundo de verdade porque a gente vive em uma estrutura muito reprimida. Eu entendo que as pessoas tenham resistência, mas do ponto de vista da liberdade, o fato de eu não querer, não pode me impedir o outro de fazer. As pessoas tem pouca experiência em respeitar o direito alheio, eu quero interferir na sua religião, na sua alimentação, no seu modo de vestir…. Eu não preciso tentar te transformar em outra coisa? É muito complicado isso de cercear a liberdade do outro.

Outra coisa grave (Da intervenção) é a fabulação de outros conteúdos, que não estão na minha peça, mas que está no olhar de quem julgou o trabalho. Um jornalista de Londrina fez um comentário ‘estapafúrdio’, sei lá, ele ouviu falar dos ‘peladões’ e depois ouviu falar que eles estavam se defendendo (Dizendo que tinham feito um trabalho sobre o holocausto), mas ele não sabe de nada…. Isso é perigoso! Outros jornalistas entraram em contato, me mandaram um e-mail, e antes de se manifestar eles leram e se informaram sobre. Eles até acabaram fazendo materiais interessantes, uma colunista publicou um desabafo sobre a questão das pessoas verem só a nudez em um trabalho que estava justificado por outras formas, foi bem interessante.

No dia, alguém muito inadvertido tirou uma foto e começou a mandar pra todo mundo, dali, ai, alguém recebeu uma foto e divulgou por ai – Sendo que muito pouco se questionou sobre o motivo de estarem nus. Algumas pessoas até inventaram histórias, ela não está induzindo sexualidade ali.

O problema maior é as pessoas falarem ‘Não pode fazer’ – Se o pessoal quiser fazer uma roda de dança nus, eu vou achar um exercício de liberdade e de transgressão e de desafio corporal. Eu não irei ver gente pornográfica ou que esteja abusando do espaço. Alguns podem achar absurdo, mas isso não autoriza alguém a proibir algo.