Por Bruno Leonel

Dona de uma prosa fluída e de uma narrativa que examina de perto todas as pequenas nuances e neuras em cada um dos personagens (Em especial àquelas do universo feminino) a escritora Londrinense Samantha Abreu lançou recentemente o livro ‘Mulheres sob Descontrole’ (Atrito Arte), segundo trabalho completo assinado pela autora.

Em comparação ao primeiro livro (‘Fantasias para quando vier a chuva’ de 2011) este segundo trabalho da autora tem um foco maior no texto narrativo, sempre trazendo histórias contadas através de monólogos e diálogos com as mulheres em foco. Os textos buscam uma maior reflexão sobre esse certo ‘controle’ muitas vezes exigido das personagens , mas que frequentemente esbarra em outras questões como o preconceito e a visão desigual que certos olhares tem para com as mulheres. O livro compila textos escritos entre 2006 e 2011  “A intenção na verdade é gerar justamente a ideia de que não tem que ter. O controle é imposto por quem? De que controle a gente está falando?”, comenta a autora sobre algumas das ideias sustentadas no livro.

O RubroSom conversou com a autora sobre o atual momento da literatura na cidade, assim como, influências e as diferentes fases do processo de criação literária. Confira:

Recentemente, nos meios literários, vejo que rola uma certa onda, um certo ‘boom’ de várias autoras mulheres que estão publicando livros e chamando a atenção em um espaço relativamente curto de tempo (Inclusive em Londrina), O que você acha disso? Seria uma coincidência talvez esse ‘boom’ de escritoras?

Eu não sei te dizer nem se é coincidência, eu não acho que seja isso. Acho que seja uma oportunidade que vários movimentos estão possibilitando. A literatura, que é muito antiga, sempre foi primordialmente publicada e conhecida por autores homens… E há alguns anos o debate da literatura feita por mulheres tem sido levantado, essa discussão tem trazido à tona muitas mulheres que escrevem e, eu acho que isso contribuiu para que aparecessem mais. Ai sim talvez tenha sido uma coincidência, na cidade mesmo temos uma fase em que muitas escritoras estão se destacando, graças a deus! (Risos).

Tem homens também claro, mas, nas fases culturais de literatura forte na cidade, acho que nunca houve uma quantidade de escritoras mulheres aparecendo junto… E isso é muito bom, é maravilhoso! Não só expõe a voz da mulher, como também, possibilita o debate sobre isso.

Historicamente, a gente vive hoje um período de maior reflexão sobre várias temáticas ligadas à feminilidade. Há vários grupos feministas por exemplo que fazem reflexões, militâncias… isso tudo você acha que contribuiu para essa maior projeção das mulheres nessa área?
O feminismo contribui numa projeção das mulheres em todos os aspectos, inclusive na arte em geral. Eu acho que possibilitou, não que antes as mulheres não escrevessem, mas, o espaço era muito limitado. Tanto que você pega estudos históricos de prêmios, festivais e eventos literários e, infelizmente, você ainda vê uma participação feminina inferior à masculina. A gente sabe que não é assim na prática, a mulher escreve tanto quanto. Quando comparamos hoje com anos atrás já houve uma evolução, isso com certeza é conquista também dos movimentos sociais (Como o feminismo) que possibilita uma maior da mulher na arte.

Falando do seu último livro. Ele tem um formato mais baseado em textos curtos, herança também da internet (Onde vários dos textos surgiram)…
Ele é a compilação de uma serie que eu publiquei, era uma serie de contos mas é predominante escrito na forma de monólogos e diálogos. Não são nada narrativos. Ele foi surgido a partir de um conto que eu fiz em 2006 – Na época, segundo a autora, o mesmo chegou a ser vencedor de um concurso literário – E a partir dele eu comecei a publicar textos em um blog na internet chamado ‘Mulheres sob Descontrole’, com isso, me veio a ideia de expor textos e coisas de uma forma mais cômica, usando até a linguagem poética. Fui publicando os textos e acabava chamando a atenção, as pessoas interagiam… Durante os anos fui compilando alguns materiais que publicava por lá, e após algum tempo tive a ideia de publicar como um livro. Tentei por algumas editoras, mas, várias delas queriam colocar regras, sugerir alterações, tirar alguns contos… Alguns deles são polêmicos, geral algumas discussões né? E eu não quis fazer as mudanças, eu queria gerar os debates que fossem necessários. Aí nós apresentamos o projeto pelo Programa Municipal de Incentivo à Cultura (PROMIC), que foi aprovado pela editora da Cris Vianna (Atrito Arte), ele acabou sendo lançado em Outubro de 2015, durante o festival Londrix.

Esse título do livro “Mulheres Sob Descontrole”, além da relação meio óbvia que ele permite, tem algum significado mais profundo sobre esse universo da figura feminina retratada? Talvez essa coisa de cobrar por uma certa aparência?

Quando eu comecei a escrever os contos, sempre tive na cabeça que eram ‘mulheres loucas’, mas, não queria usar essa expressão. Ai tive um processo de buscar algo que dissesse mais, você sempre vê gente usando expressões como ‘Nossa, essa mulher está sob controle’, ok, então eu pensei em falar no livro ‘Sob Descontrole’, ficou assim… Publiquei no meu blog, e acabou ficando, esse mesmo.

Imagino que suas experiências pessoais tenham influenciado nas situações que você narra no livro?
Sim (Risos), experiência de toda mulher né? Pelo menos em alguma situação sim, teve coisas que eu vivi e coisas que amigas viveram, que eu ouço sobre. Eu não estou mais trabalhando nesse projeto por agora, mas até hoje, tem histórias que eu ouço e na hora me inspira ‘Poxa, é um personagem né?’, eu acabo sempre ficando com essa sementinha de uma ‘mulher sob descontrole’ com algum fato que pode ser narrado.

E essa coisa do descontrole? Talvez parte muito mais de uma mulher tentando se adaptar a uma dada situação ou mais sob a dificuldade de um homem em entender certas questões da mulher?
A intenção na verdade é gerar justamente a ideia de que não tem que ter.. Esse controle é imposto por quem? De que controle a gente está falando? Então é justamente isso, mulher não tem que ter controle nenhum. Assim, tem que ter o controle que todo mundo tem que ter, independentemente de ser homem ou mulher, tem um certo controle que todo mundo precisa, e tirar essa ideia de ‘Ahh, essa mulher é controlada, essa mulher é descontrolada….”, foi essa a intenção do nome.

Você costuma pegar textos seus de muito tempo e reler?
Eu costumo, não gosto muito porque toda vez que eu releio, eu quero mudar alguma coisa. Depois de publicado você não tem mais como mudar, mas releio pra ver a voz sabe? Se aquilo de repente diz alguma coisa, é complicado, tem coisa que você escreve e depois de muito tempo aquilo não te diz muita coisa sabe? Na verdade, ou na maioria das vezes (risos), mas os textos específicos deste último livro, até hoje tem um significado, eu rio dele ainda, ele tem a mesma ideia de gerar um questionamento sobre o papel ridículo que é imposto muitas vezes para a mulher, então, até hoje eu percebo isso. É diferente de outras situações em que eu escrevi.

Você tem formação acadêmica Samantha. Já vi algumas discussões, especialmente na academia, gêneros como a narrativa e a crônica são vistos as vezes como ‘gêneros menores’ em relação a outros…. Pessoalmente é algo que te incomoda, interfere no seu trabalho?
Não me preocupo nem um pouco com isso…. Acho uma idiotice total, primeiro porque não é o gênero que vai dizer se isso é maior ou menor, é o que está no texto. Mas existe sim um certo preconceito, especialmente na academia, porque existe também um jeito ‘blasé’ de encarar a literatura entendeu? Inclusive na poesia, que é a mais respeitada e endeusada das formas literárias. Você pega uma poesia simples, como os varais de poesia (Vi até uma discussão outro dia do Felipe Pauluk, no facebook) e a academia questiona o fato de você popularizar a poesia. Se a poesia tem a erudição, e tem o popular, por que os outros textos não podem ter? Porque não é possível transitar nos dois meios? O gênero infelizmente – Para essas pessoas que querem que seja – não é um patamar para colocarmos um filtro do que é ou não literatura.

Que autoras mulheres mais te influenciaram?
Muitas, eu gosto muito da Clarice Lispector – Acho todos os livros dela maravilhosos, mas, sou muito apaixonada pelo conto ‘Amor’ (Do livro ‘Laços de Família’) e o livro ‘Água viva’, tive uma compulsão com ele, foi uma descoberta pra mim dolorida, pra algumas pessoas que conheço também. Gosto também da Hilda Hilst, Ana Cristina César, Adélia Prato (Que tem um jeito mais simples), Conceição Evaristo e muitas outras mulheres que estão escrevendo que a gente acaba lendo….

Tem um livro fresco ainda, lançado recentemente, já pensa em outros projetos?
Eu to trabalhando em um outro livro atualmente, que é de poesia, pretendo lançar entre o final deste ano e o ano que vem. Por agora, o foco é divulgar ainda o ‘Mulheres sob Descontrole’.


Informações sobre a autora

Facebook/MulheresSobDescontrole
E-mail: sa.de.abreu@hotmail.com