Por Bruno Leonel

Aqueles hits de sempre aliados à ilustres faixas desconhecidas, longas filas e eventuais surpresas que fazem uma noite toda valer a pena. Neste mês, a Terça Tilt, uma das festas mais conhecidas e notórias realizadas em Londrina, está completando 13 anos de existência. O projeto que inicialmente começou como uma reunião entre amigos jornalistas – Que tinham a ideia de tocar rock alternativo, indie e outros estilos populares no início dos anos 2000 – acabou resistindo ao tempo e se tornando um dos eventos mais celebrados e duradouros da cidade. Realizado sempre no meio de semana, em um dia totalmente improvável para que o grande público compareça e fique até tarde, o evento acabou contrariando diversas expectativas e resistindo! Mesmo após mudanças (Veja a seguir) acabou perdurando como um dos eventos mais emblemáticos da cidade.

Raridade! Fotos de uma Terça Tilt de Dezembro de 2004, uma das primeiras nas quais Vanessa 'Gummo' Virginia discotecou, ainda no antigo endereço do Bar Valentino - Foto: Acervo Vanessa Virgínia
Raridade! Fotos de uma Terça Tilt de Dezembro de 2004, uma das primeiras nas quais Vanessa ‘Gummo’ Virginia discotecou, ainda no antigo endereço do Bar Valentino – Foto: Acervo Vanessa Virgínia

Segundo o fundador da festa, Nelson Sato, a ideia do evento ocorreu após uma bem sucedida festa realizada ainda no ano de 2003, na Usina Cultural em Londrina, com discotecagem alternativa. “A festa surgiu em Dezembro daquele ano, a partir de um evento, feito apenas com jornalistas na Usina, na época compareceram muitas pessoas que trabalhavam na Folha de Londrina, no antigo JL, na RPC e etc… Na época tocaram pessoas como a Janaína Ávila, o Fábio Galão, e quem foi acabou gostando muito. Depois disso, tive a ideia de fazer um evento parecido, em algum espaço da cidade, chamando o Galão para ser o DJ residente, tocando o tipo de som que a gente curtia, nessa praia mais de rock, indie, alternativo – Era um som que estava bastante em alta na época, com nomes como Killers, Strokes – e não tinha lugar em Londrina onde isso tocava. Eu na época ia bastante ao Valentino e sugeri ao pessoal a ideia… O único dia possível seria nas terças! De início, eu achei que ia ser complicado, mas, como não tinha outro dia fizemos, e acabou comparecendo um público bem legal, gente que gostava desse estilo de som.Divulgamos os cartazes em várias lojas e espaços da cidade e seguimos…Só tempos depois, quando fizemos a Tilt de um ano, em 2004, notamos como o negócio tinha sido fenômeno de público mesmo. Além do bar lotado, ficou gente pra fora”, relembra Sato, que até hoje sempre inicia as discotecagens no primeiro horário. Neste dia, além da tradicional discotecagem, houve também show com a banda Mudcracks.

Na foto de cima, Gi Bedendo (Uma das djs populares dos primórdios da tilt) em uma tilt de 2004 e ao lado uma foto cle uma das tilts realizadas no mesmo ano - Foto: Acervo Vanessa Virginia.
Na foto de cima, Gi Bedendo (Uma das djs populares dos primórdios da tilt) em uma tilt de 2004 e ao lado uma foto tirada no mesmo ano (Vanessa Virginia é a de cinza) – Foto: Acervo Vanessa Virginia.

Com o tempo, a festa acabou ganhando alguns detalhes que se tornariam marca com o passar do tempo, como a rotatividade de djs, sempre com pessoas novatas comandando o som do bar. Dessa fase inicial, (e que também acabou tocando na festa durante muitos anos) Vanessa ‘Gummo’ Virgínia relembra algumas histórias da época “Encontrei por acaso o Sato na rua, eu havia voltado para a cidade há poucos meses, e foi quando ele falou da festa. Fui com algumas amigas e de cara adorei o clima intimista de terça, no velho Valentino. Fumaça, cerveja gelada, muita conversa e ao fundo uma gama de musicas interessantes tocando. No meio da noite, veio o primeiro convite: O Sato dizendo que queria muito ter uma noite só com meninas discotecando. Deu medo, claro. Mas eu já havia trabalhado uma loja de discos, então, dar play em sons que o povo gostava, para mim, era razoavelmente fácil. Em 13 dezembro 2004 fiz a primeira discotecagem na noite. A tal menina não apareceu, e tive que me virar umas duas horas e meia, até que ela desse o ar da graça. O ambiente ali, atras do balcão, com os garçons passando a toda hora de um lado para outro, pedindo licença ou não; o publico gritando que o som tava baixo, ou muito bom, ou até me confundindo com alguma atendente e pedindo cerveja; os papeis surgindo do nada com nome de musica ou nome de banda para rolar; Era o mais comum que tínhamos nas primeiras festas Tilt”, relembra Vanessa. Ela, aliás, cedeu algumas fotos do acervo pessoal para a matéria.

Fotos de duas terça-tilts no ano de 2006, já no novo endereço do Bar Valentino - Foto: Acervo Vanessa Virginia
Fotos de duas terça-tilts no ano de 2006, já no novo endereço do Bar Valentino – Foto: Acervo Vanessa Virginia

Segundo Vanessa, nessa época, a música era ainda o grande atrativo da festa. O público que, inicialmente, comparecia era muito ligado ao estilo de som que tocava, talvez, pela raridade de espaços dedicados ao gênero até então. “A festa celebrava essencialmente os bons sons. Estávamos num mundo onde Strokes, Killers, White Stripes ainda era bandas novas. A internet não era tão rápida para termos todos os discos dos anos 90’s baixados. E o que tínhamos era ouvido exaustivamente, tornando-se clássicos, só por esta razão. E continuou assim. Quase dez anos depois, eu ainda me sentia bem tocando na festa…” contou Virginia à nossa reportagem.

Mudanças –  O evento seguiu em alta durante a era do ‘antigo endereço’ do Bar, até que, em 2005, o espaço foi transferido para a Avenida Faria Lima. A mudança, segundo Sato, impactou também no público que frequentava o local. “Ali mudou muito, ampliou demais o público. Com o tempo, essa plateia (Da Tilt) foi mudando, notamos que não era mais gente só que ia pra ouvir o indie rock, aos poucos, fomos mudando o estilo. No início não tinha espaço pra nenhum pancadão, funk e outros estilos, era radical o negócio, e ai, com a mudança de perfil das pessoas, quem comparecia passou a exigir outro tipo de música….” contou Sato que, com o passar dos anos viu a Tilt abraçando novas vertentes musicais como o eletro, o pop e até eventuais funks brasileiros.

Imagens de Terças Tilt realizadas entre 2006/2008 já no novo endereço do bar (Detalhe para o CDj ainda sem a 'bancada' de apoio) - Foto: Acervo Vanessa Virginia
Imagens de Terças Tilt realizadas entre 2006/2008 já no novo endereço do bar (Detalhe para o CDj ainda sem a ‘bancada’ de apoio) – Foto: Acervo Vanessa Virginia

A solução, veio exatamente com a rotatividade dos Djs. Depois do indie rock, a saída foi buscar novas pessoas para tocar e nomes que fossem mais ligados á novas músicas que o público gostava de ouvir. “Como a festa é predominantemente universitária, foca no pessoal de 18 a 30 anos, elas tem um período na vida em que saem mais para os bares. Hoje o estilo mudou muito, esse som rock do início dos anos 2000 não é mais hegemônico, não é mais a música que todo mundo curte, logo, a festa mudou bastante, o repertório ficou bem eclético…” contou Nelson.

Uma imagem mais recente da Terça Tilt (de 2010) já com o Bar Valentino após a reforma - Foto: Acervo Londripost
Uma imagem mais recente da Terça Tilt (de 2010) já com o Bar Valentino após a reforma – Foto: Acervo Londripost

Longevidade – Em meio a um contexto (E cidade) onde bares e projetos musicais não costumam ter uma longevidade, para Sato, o fato da Tilt ter durado já por tantos anos tem a ver muito com a adaptação da proposta a novos públicos “Sempre buscamos também colocar pessoas novas para tocar, o próprio pessoal que frequenta a festa sempre pede pra tocar e isso vai movimentando o espaço. Muita gente começou a tocar na Tilt e, isso acabou formando Djs para outros espaços, gente que hoje em dia trabalha com isso tocando em outras casas noturnas”, contou Sato. Segundo ele, dar continuidade à proposta da Tilt é a principal meta para o futuro. “Em cinco anos, gente que estava nascendo quando fizemos a primeira festa em 2003 vai estar completando 18 anos, e indo ao bar, é muito louco isso”, brinca Sato.