Por Bruno Leonel

Possuidores de um estilo musical peculiar, que cruza ritmos e influências num compilado de sons de definição improvável, a banda londrinense Caburé Canela irá lançar neste sábado o seu primeiro álbum, intitulado ‘Cabra Cega’. O álbum, que foi finalizado no ano passado, apresenta um pouco das viagens sonoras e poéticas dessa banda que emprestou seu nome de uma pequena e rara coruja que resiste pelos interiores do Brasil.”O processo foi bom para adentrarmos ainda mais às músicas, e de certa forma aumentamos nosso senso crítico sobre elas”, contou a vocalista Carolina Sanches.

O lançamento acontece no sábado (24), às 19h30 no teatro do SESI/AML (Rua Maestro Egidio do Amaral, 130, em frente à Concha Acústica). Na ativa desde 2013, a formação da Caburé Canela conta com Carolina Sanches (voz), Lucas Oliveira (voz, guitarra e violino), Maria Carolina Thomé (percussão), Mariana Franco (contrabaixo), Paulo Moraes (bateria) e Pedro José (voz e guitarra).

Caburé Canela lança disco neste sábado
Além das canções do CD Cabra Cega, a banda irá apresentar outras composições que foram concebidas antes e depois das gravações – Foto: Sthepanie Massarelli

 

 Na música da Caburé prevalece uma mistura sonora que atravessa ritmos populares, como baião, samba, bossa nova, rock, blues, afro-beat, semba de angola e rumba. Notas dissonantes misturadas a temas dançantes – Punk-samba. Reggae-jazz. África-Schoenberg. Os ingressos são limitados e custam 10 reais, podendo ser retirados uma hora antes do show no próprio local. A seguir, confira uma entrevista com o grupo:

Pra começar, há quanto tempo já trabalhavam com esse material do disco? Há faixas muito antigas junto de material mais recente?
A maioria são músicas de no mínimo três anos de idade. A mais recente do disco, que a banda toca é a música “Medo”, do Pedro José, mas é por ele ter entrado por último na banda. (Lucas)

Como foi o processo de gravar? Entraram já com 100% de arranjos prontos, ou tiveram tempo para experimentar instrumentos e testar coisas em estúdio?
Já havíamos trabalhado bastante o repertório do álbum, as sonoridades já estavam bem consolidadas. Uma coisa ou outra que acabou saindo na hora. Mas também o nosso jeito de tocar permite experimentações e improvisos. Não são arranjos 100% fechados nunca. (Lucas Oliveira)

Gravamos do dia 5 ao 14 de dezembro de 2016 e no início de 2017 refizemos pouquíssimas coisas. O processo foi bom para adentrarmos ainda mais às músicas, e de certa forma aumentamos nosso senso crítico sobre elas. É importante poder se ouvir de fora, distante do palco, com uma captação justa. Com um áudio limpo é possível perceber tanto às qualidades sonoras com mais precisão, quanto as “imperfeições” que também fazem parte da gente. Nesse sentido, acho que o processo de gravação do disco, é uma ótima possibilidade para darmos sequência ao que estávamos fazendo antes, com outros olhos e ouvidos. O que fica é a clareza de que somos realmente seres humanos (rs) em processo. (Carolina Sanches)

E sobre as referências, o que andaram ouvindo durante a gravação do disco? Tem algo novo (br ou estrangeiro) que tem chamado a atenção de vocês?
Tem sempre várias coisas novas. Tô escutando bastante o disco novo da Xênia França, bem interessante. Durante a gravação não me lembro, mas é sempre um misto de muita coisa diferente. (Lucas Oliveira)

Durante a gravação escutava bastante o disco Ascensão da Serena Assumpção, andava encantada com a quantidade de artistas e distintas sonoridades envolvidas em um mesmo projeto. Atualmente, estou viciada no CORTE novo disco da Alzira E. não é uma artista nova, mas o enredo psicodélico-barulhento é algo recente em seus trabalhos, é um som quebradiço, acredito ter muito a ver com coisas que temos experimentado. (Carolina Sanches)

Falando um pouco das influências… Tem um destaque interessante na parte das letras, tem muito de escritores e referências literárias nas composições? (se puderem citar alguns nomes, é interessante).
Gosto bastante de Manoel de Barros, Paulo Leminski, Torquato Neto, Jorge Luis Borges, Clarisse Lispector. São minhas maiores influências literárias talvez. Dentro da música gosto das letras do Chico César, Chico Science, Raul Seixas, Itamar Assumpção e muitos outros. Tem muita gente boa. (Lucas Oliveira)

Quando comecei a escrever, era bem um período de reflexão sobre leituras que fazia, como se a borbulha do que eu lia, espelhasse também nas sensações que me tomavam na hora da escrita.  Escritos de artistas de distintas áreas, não só literárias, fazem parte do meu processo criativo, os artistas plásticos Louise Bourgeois, Iberê Camargo, Leonilson e Hélio Oiticica, escreviam sobre seus processos criativos e existências de uma forma muito bonita e instigante, adentravam a escrita de maneira muito visual, sublinhando ainda mais a potência das palavras como gestadora de imagens. Isso me interessa muito na hora de compor.

Os filósofos Friedrich Nietzsche, Gaston Bachelard, Marcia Tiburi, Albert Camus, poetas como Pablo Neruda, Ricardo Aleixo, Manuel de Barros e Bartolomeu Campos de Queirós, são também referências importantes em todo processo. (Carolina Sanches)

Produzido pela própria banda, gravado e lançado de maneira totalmente independente, com captação, mixagem e masterização de Alexandre Bressan, do estúdio 3em1, o disco do Caburé Canela apresenta sete composições autorais que dialogam com as visões do personagem conceitual que conduz o disco Cabra Cega: o andarilho - Foto: Divulgação
Produzido pela própria banda, gravado e lançado de maneira totalmente independente, com captação, mixagem e masterização de Alexandre Bressan, do estúdio 3em1, o disco do Caburé Canela apresenta sete composições autorais que dialogam com as visões do personagem conceitual que conduz o disco Cabra Cega: o andarilho – Foto: Divulgação

E o nome do álbum ‘Cabra Cega’ tem algum significado especial?
Sim. É parte da letra da primeira música do disco, “Andarilho”. Faz referência à brincadeira da cabra cega, na qual você fica com os olhos vendados e tem que achar os amigos. É basicamente um simbolismo para nossa busca diária daquilo que nos faz bem. Por não enxergarmos o caminho, às vezes tropeçamos, nos machucamos, achamos algo que parece valioso, mas na verdade era só uma pedra qualquer. (Lucas Oliveira)

Estamos sempre procurando, caminhar sem rumo pré-determinado é uma rota que não sabemos o que estará lá em frente. Estar “cego”, contribui para que utilizemos dos outros sentidos corpóreos que temos. E de alguma maneira, nosso som é difícil de ser enquadrado em rótulos, estilos e ritmos, podemos dizer musicalmente, que estamos tateando/tocando no escuro. (Carolina Sanches)

Este ano especialmente tem sido movimentado pra artistas de Londrina (4 artistas daqui tocaram no Psicodália por exemplo), essa ciclo de certa forma ajuda as bandas daqui? Vocês já estão com planos para fora de Londrina?
Acredito que de certa forma sim, Londrina sempre se mostrou uma cidade cheia de artistas com grandes potenciais. E, esse ano ter tantos artistas da cidade em um festival como este, é de grande importância. Espera-se que Londrina tenha cada vez mais visibilidade artística, e que o resultado disso, se fortaleça exatamente nesses espaços alternativos, de intercâmbio, de troca entre outros artistas, como é o Festival Psicodália. (Carolina Sanches)

Estamos sim com planos para fora de Londrina. A ideia é que após o lançamento do álbum haja uma movimentação. É importante levar o som para outros ares.

Apesar da produção cultural autoral intensa na cidade, muitos artistas relatam dificuldade de atingir os ‘ouvidos’ do pessoal aqui com a música autoral… Como vocês entendem essa questão hoje? Melhorou nos últimos anos, ou ainda é uma falta de hábito do público, o que acham?
Faz um tempo que a galera está acostumada a sair de casa para ver banda cover. Virou um hábito, mas também tem muita gente que não aguenta mais. Eu nunca gostei muito. Gosto de quem toca o próprio som e dá a cara a tapa, sem medo de ser quem é. Alguns donos de bares e promotores estão abrindo mais as casas de show pra bandas autorais, mas ainda assim, é preciso que o público compareça mais nos shows.

É tudo uma questão de correr riscos, tanto para quem contrata a banda, para quem vai assistir e para quem toca também. Todo mundo tem que ter coragem de correr o risco e enfrentar o novo. (Lucas Oliveira)


Serviço
Show de Lançamento: CD Cabra Cega, da banda Caburé Canela
19h30 – Centro Cultural SESI/AM
Rua Maestro Edígio Camargo do Amaral, 130
Entrada: R$10 (ingressos uma hora antes, no local do show)
CD: R$20