Por Bruno Leonel

Realizado há 17 anos em Londrina, o Festival Demosul iniciou recentemente uma campanha de financiamento coletivo para arrecadar fundos para a edição deste ano. Com data prevista para ocorrer de 19 a 22 de outubro de 2017 (em diferentes palcos pela cidade), neste ano o evento será produzido sem nenhum tipo de apoio público ou privado. Segundo campanha iniciada pela plataforma kickante, a meta é arrecadar pelo menos R$ 8 mil por contribuições que variam entre R$ 20 e R$ 200.

Em 2016 a Concha foi palco de eventos como a abertura do Demosul (Na imagem Patife Band se apresenta no local) - Foto: Bruno Leonel/Rubrosom
Em 2016 a Concha foi palco de eventos como a abertura do Demosul (Na imagem Patife Band se apresenta no local) – Foto: Bruno Leonel/Rubrosom

Segundo divulgado, ao longo de todos os anos em que ocorreu, o Festival recebeu apoio do Programa Municipal de Incentivo a Cultura, o que permitiu que o evento oferecesse ao público uma programação acessível, composta por oficinas, palestras, rodadas de negócios, feira e shows de diversos gêneros. “Dificuldades de fazer um festival de música independente são varias; pouca gente conhece, tem pouco público e você tem que pensar em todas as etapas, desde formar o público até fazê-lo ou ensiná-lo a valorizar isso”, contou Marcelo Domingues, produtor do festival ao longo de todas as edições.

Músicos, jornalistas e produtores trocam informações durante a rodada de negócios do Demosul 2016 - Foto: Bruno Leonel
Músicos, jornalistas e produtores trocam informações durante a rodada de negócios do Demosul 2016 – Foto: Bruno Leonel

Emblemático para a cena independente brasileira, e sobretudo referência dentre festivais realizados no sul do país, o evento trouxe na última edição artistas internacionais como Rosário Smowing (Argentina), e bandas de destaque no Brasil como Macaco Bong, e o artista pernambucano Siba. Confira a seguir uma entrevista com Marcelo, na qual ele comenta sobre a campanha:

Rubrosom  – O Demosul é um evento já com história na cidade (acontece há mais de 15 anos), quais foram as maiores dificuldades em realizar todos os anos o festival? Tem algum ano que você destaca como o mais ‘difícil’ ??
O Demo Sul completou em agosto 17 anos e a impressão que tenho é que todo ano parece que é sempre a 1ª vez que estamos realizando o festival. Dificuldades de fazer um festival de música independente são varias; pouca gente conhece, tem pouco público e você tem que pensar em todas as etapas, desde formar o público até fazê-lo ou ensiná-lo a valorizar isso. Além disso, há a questão financeira, em Londrina o patrocínio continua sendo uma questão difícil para a cultura de uma forma geral. Em produções como o Demo Sul, os patrocinadores privados ainda não conseguem enxergar o potencial e o retorno de público, por isso saber como manejar o pouco dinheiro é, muitas vezes, o maior desafio.

Eis que em 2017, agora com a campanha de crowdfunding, vocês citam que não há nenhum patrocínio envolvido (até agora), no evento, mesmo com tantas edições e realizações positivas, porque você acha que há ainda essa dificuldade em angariar recursos para o evento?
Os festivais além de desenhar um extenso mapa musical da cidade, com eventos ricos em oportunidade e criatividade, entende que Cultura e a Arte, além de manifestações de talento e criatividade, são hoje importantes atividades econômicas, que produzem qualificações, criam e exploram novos espaços sociais, promovendo reurbanização e induzindo o desenvolvimento de outras atividades.

Infelizmente como citei, as empresas em Londrina em sua grande maioria ainda não conseguem visualizar este potencial, o retorno social e de mídia que projetos culturais podem produzir e ofertar as suas marcas. Quanto mais as pessoas se identificam com a arte, mais perceberão a importância da cultura em suas vidas, como algo não só da esfera do lazer, mas da necessidade. Isso, só é possível se o público notar que sua cultura regional tem representação em nível nacional. Em momentos de extrema desvalorização da arte, ter esse apoio (crowdfunding) das pessoas é fundamental.

Você que viaja muito, circula por outros festivais, acha que este problema é meio geral nos tempos atuais? (Tem a ver com o momento político do país, etc… )
Sim, o país está atravessando o momento politico mais complicado da história, este momento traz insegurança principalmente para o setor cultural. Este ano, por exemplo, muitos festivais de música com décadas de realização perderam seus principais patrocinadores. A crise afetou todos os setores da economia do país, hoje, os cortes são generalizados. Antes, eu achava que o problema dos recursos para a cultura era de má gestão. Hoje, falta tudo.

Ao longo dessas edições todas, qual você acha que foi o maior legado já feito durante esses shows/simpósios já realizados por aqui?
O Demo Sul, colocou Londrina na rota dos festivais de musica independente do Brasil, tornando a cidade um polo turístico e de atração para público, artistas, bandas, músicos, produtores culturais e jornalistas atrelados ao cenário da música brasileira. A cidade consolidou-se como peça importante na rota de festivais nacionais e internacionais de música, sendo incorporada de forma definitiva como referência às bandas e músicos de todas as regiões do Brasil e do exterior. Além dos shows, o Demo Sul sempre pautou discussões no âmbito da produção e do fomento à música assumindo a responsabilidade de estruturar e solidificar o rico cenário musical londrinense. Acreditamos no potencial pedagógico da ação cultural, por isso o festival sempre promoveu simpósios, palestras, feiras, oficinas, workshops, rodadas de negócios e diversas atividades de formação gratuitas para sociedade de Londrina. Isso sem citar as dezenas de bandas que saíram da cidade impulsionada pelo festival.

Bandas de várias regiões do país como o duo 'Phantom Powers' (De Porto Alegre) se apresentaram no último Demo Sul - Foto: Bruno Leonel/Rubrosom
Bandas de várias regiões do país como o duo ‘Phantom Powers’ (De Porto Alegre) se apresentaram no último Demo Sul – Foto: Bruno Leonel/Rubrosom

Neste ano tivemos a situação toda envolvendo o cancelamento do PROMIC e impactando vários projetos da cidade (em outros anos o Demosul contou com o programa inclusive), como você vê este tipo de situação para os produtores culturais? Na sua opinião, há um ‘desmonte’ organizado para enfraquecer produções e grupos artísticos??
A politica cultural em Londrina vive uma situação de limbo, algo como se fosse um purgatório das políticas públicas. O PROMIC teve seu auge entre 2003 a 2012, foi um momento onde a direção do programa vivia e respirava as manifestações culturais produzida em Londrina. Hoje o excesso de tecnocracia instalado fala mais alto do que a sensibilidade artística, e isso cria um enorme obstáculo para os trabalhadores da cultura. Não sei se há um desmonte organizado por algumas pessoas. Mas acredito que o exagero burocrático é que está afastando os produtores culturais e enfraquecendo os grupos artísticos. Também acredito que remanejar servidores de setores que não são da cultura, ou que não tenham sensibilidade para trabalhar nesta área, mais engessa e prejudica do que ajuda no desenvolvimento do programa e da politica cultural da cidade.


Informações
Acesse a campanha de financiamento coletivo do demosul no Kickante!