Por Bruno Leonel

Conflitos, incômodos da infância, perturbações do do dia-a-dia e algumas reações, vividas por pessoas do cotidiano diante destes desconfortos. É com alguns destes temas (E dezenas de outros relacionados) que se forma o contexto do espetáculo ‘Desorganismo’ realizado por formandos de Artes Cênicas da UEL, e que será apresentado nesta sexta (4) em Londrina na Divisão de Artes Cênicas da UEL. A peça conta com 13 atores no elenco e coordenação do professor Dr. Aguinaldo de Souza. A peça teve uma pré-estreia durante a última quinta (03) na ocupação do Departamento de Artes Cênicas da UEL.

Início da peça 'Desorganismo' encenada por formandos de Artes Cênicas da UEL - Foto: Bruno Leonel/Rubrosom
Parte do elenco durante o início da peça ‘Desorganismo’ encenada por formandos de Artes Cênicas da UEL – Foto: Bruno Leonel/Rubrosom

O foco aqui não é estabelecer uma trama ou cronologia linear, e sim, seguir um caminho mais abstrato. Tão abstrato quanto pode parecer a percepção de um grupo de pessoas que tenta ‘tatear’ a possibilidade de uma harmonia e ordem orgânica, através de ações permeadas por relatos de lembranças recentes, e antigas, todas sobrepostas no mesmo tempo e espaço. Ao longo de pouco mais de uma hora, o espectador é submetido à diversas sensações em sequência. Sem pausa, há desde momentos silenciosos e trechos com breves monólogos, até sequências introspectivas e picos de profunda tensão com lapsos de náusea (Mas sem spoilers ok?). Como uma espécie de mosaico, o texto foi elaborado coletivamente a partir de informações pessoais que cada um dos atores trouxe para o projeto. A montagem rica e, repleta de nuances, é um dos destaques, tanto em relação ao uso inteligente do espaço, dá quantidade de elementos – Indo desde uso de pernas de paus, cenas de destaque apenas à expressão corporal, objetos até a quantidade de eventos e interpretações diversas, acontecendo ao mesmo tempo, em momentos com mais de 10 atores em cena – Há até um interessante momento de ‘caos’ sincronizado feito pelo grupo ao som da música Blue Monday, do grupo New Order.

Movimentos separados e pequenos eventos feitos em grupos de 3 ou 4 atores são alguns dos elementos presentes na peça - Foto: Bruno Leonel/Rubrosom
Movimentos separados e pequenos eventos feitos em grupos de 3 ou 4 atores são alguns dos elementos presentes na peça – Foto: Bruno Leonel/Rubrosom

Segundo o coordenador, o conceito foi todo formado a partir de quatro questionamentos, ligados à traumas e incômodos que os próprios atores carregavam da infância, e também, de eventos recentes vividos por cada um. “A peça como um todo vai purgando dores individuais, e também, dores coletivas, isso tudo não tem nem como falar sozinho porque, a construção foi toda feita em grupo. Essa metodologia dos questionamentos – Sobre traumas da infância, algo que você acha que precisa ser discutido urgentemente – é um dos procedimentos para a construção de um espetáculo performático mesmo, aí você dá os apoios, os estímulos e eles constroem. Todo o material poético é de depoimentos ou de observação da vida, as cenas se constroem gradativamente…”, pontua Aguinaldo de Souza.

Utilizando também um fundo musical, ora dissonante, ora mais ‘ameno’, os momentos mais cruciais do espetáculo ganharam força na apresentação. Seja no peculiar trecho no qual atores ‘assoviam’ o hino nacional, em meio a uma certa ironia com figuras patriotas até sequências ambientadas por ruídos drones e até fúnebres. Os recuros são inúmeros; Há momentos por exemplo em que, todas as luzes do local são apagadas e a única iluminação vista é gerada por lanternas usadas pelos próprios atores, quase como um reforço visual da ideia do ‘tatear’ harmonias em meio à escuridão que assola os seres humanos. Qualquer semelhança com o atual momentos histórico (do mundo) talvez não sejam mera coincidência, não apenas em relação ao lado político, mas também, como uma forma de abrir os olhos para o reconhecimento da própria identidade e auto-entendimento em meio a um contexto de muitos questionamentos sobre temas como identidade, e a, repressão por parte de setores, algumas vezes, contrários à esse próprio entendimento. O profesor Aguinaldo de Souza cita o grupo mexicano La Pocha Nostra como uma referência importante do trabalho “Escolhemos uma estética, com esse estilo de encontro com as formas mais bizarras e agressivas retratadas na intervenção”, contou o coordenador à reportagem do Rubrosom.

Frente do prédio principal do Centro de Artes Cênicas (UEL) ocupado desde o último dia 24 - Foto: Bruno Leonel/Rubrosom
Frente do prédio principal do Centro de Artes Cênicas (UEL) ocupado desde o último dia 24 – Foto: Bruno Leonel/Rubrosom

Ocupação – Usando o formato de performance sequencial, em que as ações ocorrem em um espaço de tempo determinado, uma após a outra, a apresentação de ‘Desorganismo’ na última quinta, foi vista por cerca de 30 pessoas, dentro de uma das salas do Departamento de Artes Cênicas da UEL. O Centro foi o primeiro a ser ocupado (No dia 24 de Outubro) dentro do Centro de Educação, Comunicação e Artes (CECA) da UEL.  Dentre as principais pautas, o grupo manifestou repúdio às PEC 241, que eles citaram como “um ataque direto ao direto à saúde e educação, congelando os valores investidos nas áreas da educação” e a MP 746 Confira nota do Centro Acadêmico de Cênicas AQUI.  Atualmente, os centros de Comunicação, Artes, Pedagogia, Música e Pedagogia – Todos também do CECA, encontram-se ocupados. Atividades culturais estão sendo realizadas nos espaços durante toda a semana.

Elenco: Amarilis Irani, Alan Buck, Beatriz Sitta, Danilo Neiva, Gabriel Yuri Kondo, Heloisa Goulart, João Henrique Schiavo, José Henrique Silva, Luan Almeida Sales, Marco Antônio Paixão, Marina Rodrigues Quesada, Murilo de Andrade, Paulo Vitor Miranda e Rogério Francisco Costa.


Ficha Técnica
ILUMINAÇÃO:
O Grupo
SONOPLASTIA: Marco Antonio Paixão
COORDENAÇÃO: Aguinaldo de Souza


SERVIÇO
Desorganismo
Entrada: Produtos de limpeza ou higiene.
Data: 04/11 a 06/11, às 20h30.
Local: Divisão de Artes Cênicas – Casa de Cultura – UEL
Av. Celso Garcia Cid, 205