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** Matéria especial assinada pelo jornalista Felipe Melhado

Na redação da Folha de Londrina, é o fim de uma tarde de 1983. Um sábado do mês de junho. O estudante de jornalismo Ademir Assunção, o Pinduca, termina seus afazeres como repórter de política. De sua máquina de escrever ele vê, acenando sorridente ao seu encontro, seu amigo Ubirajara Senatore, conhecido como Bira. Os dois, que acabam de entrar na segunda década de suas vidas, são amigos próximos, moram na mesma república. E ali, na redação da Folha, se encontram pela diversão de criarem algo juntos.

Nessa hora todos os jornalistas já despacharam suas matérias para serem lidas e aprovadas pelo dono do jornal, João Milanez, e pelo editor-chefe, Walmor Macarini. Mas Pinduca e Bira, desobrigados dessa chancela, continuam trabalhando. O primeiro folheia Os Últimos Dias de Paupéria, de Torquato Neto, em busca de mais um poema para fechar a página, enquanto o outro já adianta o trabalho fotocompondo os títulos em letraset. É a primeira vez que a Página Leitura vai sair assinada pelos dois amigos. Antes, essa seção dominical já tinha sido editada pelos escritores-jornalistas Domingos Pellegrini, Nilson Monteiro e, por último, Nelson Capucho. Mas o projeto que Pinduca e Bira estavam criando para a Leitura era algo consideravelmente diferente.

Em primeiro lugar, a visualidade da página ganhava em relevância. Bira, estudante de arquitetura interessado em artes gráficas, havia sido convidado por Pinduca justamente para se debruçar sobre isso. Se antes algumas ousadias visuais já tinham sido esboçadas na Leitura, Bira radicalizaria esses experimentos, inventando soluções gráficas que destoavam cada vez mais do quadradismo visual da Folha. Ao mesmo tempo, Pinduca definia uma linha editorial vigorosa, mais coesa e potente do que as que tinham sido ensaiadas por seus antecessores. A primeira Leitura publicada pelos dois, com poemas de Torquato Neto, já definia o tom do que viria a seguir: sob a curadoria de Pinduca, a página publicaria principalmente escritores ligados à contracultura, considerados malditos, underground, marginais, uma fauna, enfim, bastante diversa de hereges que desafiaram o status quo com seu comportamento ou produção poética.

De Paulo Leminski a Gregório de Matos, de Walt Whitman a Rimbaud, passando por uma miríade de beatniks até Pagu e Caio Fernando Abreu. A Página Leitura editada por Pinduca contemplava essa grande diversidade de autores cuja intensidade da vida confundia-se com a potência da obra. Mas também publicava gênios da forma, experimentadores radicais de linguagem: Arrigo Barnabé, Haroldo e Augusto de Campos, Décio Pignatari, e.e. cummings. Sem ganhar um centavo pelo trabalho, e também por isso, sem precisar passar pelo crivo censório dos donos da Folha, Pinduca e Bira criaram uma Página Leitura surpreendente, um jorro de irreverência em um jornal basicamente conservador, de grande circulação e editado em uma cidade interiorana do Paraná.

Em pouco tempo, o trabalho inusitado realizado pelos dois começou a ser reconhecido por críticos, autores e leitores letrados. Paulo Leminski escreveu, em um jornal de Curitiba, que a vanguarda do jornalismo cultural brasileiro estava em Londrina. Waly Salomão, Boris Schnaiderman e Augusto de Campos enviaram cartas elogiosas a Bira e Pinduca, admirando a qualidade da edição. E até Carlos Drummond de Andrade, depois de publicado na Leitura, escreveu uma carta aos dois, dizendo que o trabalho deles havia “elevado sua poesia”. Um susto para os amigos de vinte e poucos anos que, cheios de entusiasmo e referências, experimentavam sem saber exatamente o que estavam fazendo.

Mas ao mesmo tempo em que pareciam ter plena liberdade editorial e reconhecimento de leitores ilustres, Bira e Pinduca também tinham de enfrentar certos prosaísmos no trabalho. Em certa edição da Página Leitura, Pinduca resolveu publicar o Uivo, de Allen Ginsberg, em uma tradução inédita feita por dois amigos – os jovens escritores londrinenses Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça. Mas, para a surpresa dos quatro, o poema saiu publicado com vários cortes, sem nenhum dos palavrões presentes no original. Alguém da redação teria mutilado o poema antes que o jornal entrasse na gráfica.

Em outra ocasião, quando a Leitura apresentou trechos da biografia de Jesus Cristo escrita por Leminski, Pinduca e Bira arrumaram briga com a Igreja local. A ideia de um Jesus outsider, meio bandido, não agradou ao arcebispo da cidade, que esbravejou com o dono do jornal. O episódio terminou com os dois rapazes repreendidos na sala de João Milanez, e Pinduca quase perdeu o emprego como repórter da Folha. Outra situação que ameaçou seu cargo foi quando a Página Leitura veiculou textos de Glauco Mattoso – dessa vez, talvez o imbróglio tenha sido por conta de um poema homoerótico (Romeu e eu) ou, talvez, em razão de uma crítica anti-patriótica à ditadura militar (Hino patriótico do prisioneiro político).

O trabalho de Bira e Pinduca também sofria insistentes críticas do departamento comercial do jornal, que não entendia porque perder uma página inteira de anúncios para veicular aquela sorte de textos. O ápice dessa briga aconteceu quando Pinduca resolveu publicar alguns haikais escritos por Bashô, e Bira desenvolveu uma página cheia de espaços em branco – silêncios gráficos que dialogavam com a estética do poeta-samurai. “Na segunda-feira seguinte o chefe de redação me chamou na sua sala pra me dar bronca”, relembra Pinduca. “Ele dizia: ‘você sabe quanto custa uma página de jornal pra você colocar todo esse espaço em branco?!’. Tentei explicar pra ele que não era simplesmente espaço em branco, e sim linguagem”.

Entre liberdade e censura, aclamação da crítica e crítica dos leitores. A Página Leitura de Pinduca e Bira circulava todo domingo nesta tensão entre o repúdio e a admiração, a caretice e a ousadia. Mas o experimento que impressionava literatos, escandalizava carolas e irritava tecnocratas da imprensa não era um ato isolado, nem mesmo um mero exercício editorial. A vontade de experimentar poética e graficamente, e o ímpeto de questionar modos de vida e padrões de comportamento faziam parte de um movimento maior. A Página Leitura era apenas uma das manifestações de algo que acontecia naquela Londrina dos 80’s: um encontro entre jovens que, com voracidade e entusiasmo, experimentavam a vida, a cidade, a arte, e se inventavam, também, por meio de suas publicações.

A Página Leitura dedicada a Glauco Mattoso. Edição de Ademir Assunção e arte gráfica de Ubirajara Senatore - Foto: Acervo Felipe Melhado
A Página Leitura dedicada a Glauco Mattoso. Edição de Ademir Assunção e arte gráfica de Ubirajara Senatore – Foto: Acervo Felipe Melhado
A Leitura dedicada ao jornalista (e na época poeta) Nelson Sato - Foto: Acervo Felipe Melhado
A Leitura dedicada ao jornalista (e na época poeta) Nelson Sato – Foto: Acervo Felipe Melhado

Quando Bira esteve na cidade pela primeira vez, no começo da década de 1980, foi para prestar vestibular em arquitetura na Universidade Estadual de Londrina. A caminho, de ônibus, o garoto paulistano se via impaciente para o desembarque. Conhecedor da obra de Vilanova Artigas, ele sabia que, de cara, já iria se encontrar com um dos grandes projetos da carreira do arquiteto modernista: a rodoviária de Londrina. Bira estava ansioso para ver a obra de perto. Mas quando finalmente chegou, o cenário o impressionou mais do que o esperado. “Seis horas da manhã, amanhecendo na antiga rodoviária da cidade”, ele conta. “Eu me lembro do azul do céu, um azul que a gente não estava acostumado em São Paulo, onde já era difícil ver uma abóbada daquelas. E eu conhecia a rodoviária do Artigas por já ter lido a respeito em catálogos internacionais. Mas quando cheguei lá tava tocando uma música sertaneja super alto no sistema de som. Ver esse contraste entre uma arquitetura radical, de ponta, e aquela música, foi algo que me pirou, sabe?! Eu pensava: meu Deus, que lugar é esse?!”.

Seu espanto com a cidade ao mesmo tempo caipira e cosmopolita o fez, quase que instantaneamente, desejar viver nela. Bira passou no vestibular e, no ano seguinte, se mudou. Em pouco tempo, passou a frequentar o pequeno círculo de artistas visuais, músicos, escritores, jornalistas e gente do teatro que transitava pela noite local. Se via maravilhado com a efervescência que experimentava na cidade. Assistia com admiração, das mesas do Bar Valentino, aos happenings da Companhia Poética, uma turma de escritores performáticos que, sem aviso prévio, vociferava poemas do alto dos balcões do bar. Logo tornou-se bastante próximo dos integrantes do Proteu, grupo de teatro que se tornaria lendário na cidade. E enturmou-se também na UEL, onde convivia principalmente com os estudantes de artes visuais, letras e comunicação.

Foi nesse trânsito entre a boêmia e o ambiente universitário que Bira conheceu Ademir Assunção. O Pinduca, então um jovem poeta que cursava jornalismo, vivia na moradia estudantil da Universidade. Mas sua biblioteca robusta não cabia no pequeno cômodo. Para resolver o problema Bira o convidou para morar junto com ele, e uma estreita amizade e cumplicidade se desenvolveu a partir de então. Relação que se encaminharia para a parceria na Página Leitura, na qual os dois trabalhariam voluntariosamente entre junho de 1983 e maio de 1984.

Pinduca e Bira dividiam a república na Rua Leonardo da Vinci com mais um estudante de arquitetura, chamado Gustavo Beghini. Gustavo tinha interesse em pintura e desenho e, à época, estava experimentando a gravura. O interesse coletivo por arte fez com que, em pouco tempo, a casa dos três se tornasse mais um ponto de encontro para a turma de boêmios e artistas da cidade. Mais um cenário para conversas, pirações, ensaios, criações, beberagens, experimentos com o corpo e com as drogas. Mas também mais um ambiente para a troca, para a barganha de ideias. Em uma época em que informações específicas sobre arte não eram de tão fácil acesso em uma cidade interiorana como Londrina, o diálogo, as longas conversas sobre artistas e autores, as intermináveis audições de LPs e K7s, as apaixonadas trocas de livros, tudo isso era fundamental para aqueles jovens vorazes, ansiosos para conhecerem e criarem.

Nessa época, Pinduca, leitor faminto e poeta em processo, já era bastante próximo dos também jovens escritores Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça. Estes dois, por sua vez, se conheciam e trocavam figurinhas desde o ensino médio. Juntos, os três compartilhavam gostos em comum: curtiam literatura norte-americana, principalmente os beats, poesia e filosofia oriental, sobretudo japonesa, poesia concreta, visual, experimental, teoria semiótica, entre outras coisas. Por outro lado, Bira, mais interessado em artes gráficas do que propriamente em arquitetura, se aproximou de colegas de faculdade que cultivavam o mesmo gosto, como Cesar Sumiya, Chico Atrito e o próprio Gustavo Beghini. Esses arquitetos-gráficos também fizeram amizade com um de seus professores, Chico Homem de Melo. Em início de carreira acadêmica, à época o jovem Homem de Melo cursava mestrado na USP, sob a orientação concreta de Décio Pignatari.

Foi em meio a esse ambiente propício para a troca, e imerso em uma certa exuberância de criatividade e entusiasmo, que o grupo de amigos resolveu inventar uma revista. A publicação deveria ser um canal no qual eles pudessem expor suas próprias tentativas gráficas, literárias e intelectuais, destilando aquele caldeirão de referências em uma poética pessoal, que pudesse dar conta de suas inquietações. Entre reuniões, bebedeiras e corres, a ideia ganhava corpo.

“Éramos todos jovens, a ditadura militar havia acabado e o Brasil todo respirava um ar diferente”, conta Pinduca. “Os livros da geração beat estavam chegando por aqui. Glauco, Angeli e Laerte, em suas tirinhas diárias na Folha de S. Paulo, ou nas revistas da Circo Editorial, traziam uma linguagem mais sintonizada com uma juventude mais roqueira, mais urbana. Paulo Leminski, Caio Fernando Abreu, Roberto Piva, Chacal e Reinaldo Morais publicavam seus primeiros livros por uma grande editora (a Brasiliense e a L&PM). Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção haviam lançado seus primeiros discos, Clara Crocodilo e Beleléu, respectivamente. Enfim, havia uma efervescência no ar. De repente, um bando de gente inquieta, querendo agitar, se encontrou em Londrina e a faísca foi riscada. As coisas aconteciam com uma velocidade espantosa”.

Entre os primeiros incêndios provocados por essa faísca estaria a revista Outra, publicada em junho de 1984. A turma responsável pela produção, edição e criação gráfica era composta pelos amigos Pinduca, Bira, Gustavo Beghini, Cesar Sumiya, Carlão, Chico Atrito e Chico Homem de Melo. A revista saiu com 52 páginas e no formato 25×21 cm. A capa, criada por Chico Homem de Melo e impressa em serigrafia, trazia colada uma fechadura. O miolo, impresso em preto sobre papel branco, foi realizado em offset, viabilizado com o patrocínio de empresas da cidade que bancaram a empreitada dos garotos em troca de anúncios ao final da publicação.

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A primeira página da Outra trazia um editorial intitulado Edite seu medo, que já era por si só um experimento poético. Se o leitor dobrasse parte da página, outra combinação textual entraria em cena, mudando o sentido do editorial. O conteúdo da Outra era bastante diverso: poesias visuais, criações gráficas, ensaios e textos literários. Mas praticamente tudo era marcado por um elemento comum: a experimentação, as tentativas arriscadas de procedimentos e linguagens. Na Outra o leitor podia encontrar, entre outras coisas, uma gravura em papel-bíblia de Gustavo Beghini que destoava do restante do miolo , um ensaio visual proposto por Carlão e Cesar Sumiya (fotografias, desenhos e citações textuais que se contrapunham para abordar um tema inusitado: a insistência da forma triangular na arquitetura londrinense, repetição entedida sobretudo como um índice de “conservadorismo mental”) e uma tradução de Chico Homem de Melo para Espaços-outros: utopias e heterotopias, uma conferência arrebatadora de Michel Foucault.

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Os rapazes mais ligados à literatura também não perderam a oportunidade de mostrar seus experimentos. Pinduca, mergulhado de cabeça em literatura experimental, publicou na Outra uma prosa poética intitulada Diário de Borco. Ele também convidou Maurício Arruda Mendonça para participar da publicação – em um momento criativo parecido com o de Pinduca, Maurício também apresentou uma prosa experimental, intitulada Monstro. Ainda hoje ele avalia a importância daquilo que chama de “criatividade anárquica” das publicações, que permitia a ousadia no campo da linguagem. “Eu fazia textos experimentais, e a Página Leitura e as revistas que publicávamos eram os canais para se veicular isso, sem dúvida”, relembra Maurício. “Aliás, era uma coisa desejada: que se publicassem coisas fora do padrão careta de literatura. Havia uma inquietação naquele momento e as revistas incorporavam isso”.

Chico Homem de Melo se lembra, também, da efervescência criativa que permitiu a existência da Outra: “Era um ambiente de fato estimulante”, recorda. “Naturalmente, meu vínculo maior era com o pessoal relacionado ao curso de arquitetura, que ainda estava em formação, havia iniciado apenas um ano antes. A meu ver, o melhor momento de um curso são seus anos de formação, tanto para professores como para estudantes. Nesse processo, costuma haver uma atmosfera de trabalho conjunto, de construção coletiva. Acredito que a geração que gravitava em torno do curso acabou envolvida por essa atmosfera”.

A revista Outra foi distribuída na cidade, nos bares, na Universidade, e chamou atenção dos leitores principalmente pela qualidade gráfica. A maioria das publicações independentes que circulava em Londrina na época era bastante simples do ponto de vista gráfico. Fanzines xerocados sem muita preocupação estética ou, então, revistas mimeografadas. Nesse contexto, a Outra se destacava consideravelmente. Quem se ligava em artes visuais, literatura ou arquitetura percebia logo que aqueles garotos estavam em uma busca estética diferente. Os fanzineiros locais admiraram a Outra, a ponto de torná-la uma espécie de publicação cult, dotando-a de um status próximo ao de um objeto de arte, inclusive em razão de sua baixa tiragem.

A poesia visual intitulada Verde, de autoria de Bira, publicada na revista Outra - Foto: Acervo Felipe Melhado
A poesia visual intitulada Verde, de autoria de Bira, publicada na revista Outra – Foto: Acervo Felipe Melhado

O fato é que, a princípio, o grupo não pretendia parar por aí. A primeira edição da Outra já anunciava parte do conteúdo que deveria sair no número seguinte, que incluiria poemas de Rodrigo Garcia Lopes e um texto de Ivan Santo Barbosa, que então era professor de teoria da comunicação na UEL. Mas a Outra número dois acabou não saindo. Após a publicação da primeira edição, a turma que a idealizou se afastou um pouco. “Não era um grupo muito orgânico”, comenta Chico Homem de Melo. Os interesses de vários integrantes foram divergindo, e a produção da número dois ficou pela metade, degringolou. No entanto, havia entre os rapazes um núcleo que se interessou em continuar o experimento. Cesar Sumiya, Carlão e Chico Atrito convidaram Rodrigo Garcia Lopes para pensar uma nova revista, que seria batizada de .

O primeiro número da Página Leitura editada por Rodrigo Garcia Lopes e com arte gráfica de Cesar Sumiya - Foto: Acervo Felipe Melhado
O primeiro número da Página Leitura editada por Rodrigo Garcia Lopes e com arte gráfica de Cesar Sumiya – Foto: Acervo Felipe Melhado

A ideia era fazer uma publicação que reunisse, principalmente, artes gráficas e literatura. O grupo desenvolveu uma edição piloto e imprimiu um boneco da revista. Depois, os rapazes circularam com esse boneco pela cidade, tentando patrocínio. Mas segundo consta o projeto não conseguiu financiamento, talvez por se tratar de uma publicação com produção gráfica um pouco mais cara. Para viabilizar a continuidade da revista, no entanto, os quatro resolveram desenvolver uma publicação na mesma linha editorial, só que mais barata: era o início da Hã Verde, toda impressa em xerox.

A Hã Verde tornou-se um grande canal de criação principalmente para Cesar Sumiya, cujo interesse pelas artes gráficas era crescente. Apesar de contar com impressão e acabamento gráfico simples, as páginas da revista eram compostas de forma bastante cuidadosa, artesanal, com muitas experimentações utilizando colagens, brincadeiras tipográficas, ilustrações e fotografias. Era algo que, notadamente, destoava dos fanzines que circulavam na cena local, a ponto da publicação ficar conhecida entre os punks da cidade como “fanzine chique” – um apelido meio jocoso que evidenciava, simultaneamente, uma afinidade e uma diferença. Ao mesmo tempo, a Hã Verde servia para Rodrigo como um importante meio de publicação, no qual podia experimentar sua poesia, compartilhar seu repertório e veicular suas traduções, muitas em parceria com Maurício Arruda Mendonça.

Após a publicação da Hã Verde número zero, um outro integrante passaria a trabalhar como editor da revista: Marcos Losnak. Também estudante de jornalismo, recém-chegado de Bauru, à época Losnak publicava sozinho um jornal-mural sobre literatura, intitulado Língua. Ele editava, diagramava e imprimia o Língua em xerox, em grande formato, e o fixava nos corredores da UEL. O Língua chamou a atenção dos editores da Hã Verde, que começaram a trocar ideia com Losnak e, em pouco tempo, perceber intensas afinidades, a ponto de o convidarem para compor o grupo.

Losnak, a princípio, foi convidado para contribuir na condição de editor de literatura. Mas o contato com Sumiya e Chico Atrito despertou nele a vontade de experimentar também nas artes gráficas. Ele aprendia o ofício trabalhando na Hã Verde e, aos poucos, se aprimorava como artista gráfico, desenvolvendo um pensamento visual cada vez mais singular. “Desde o começo da revista havia a ideia de que o recurso gráfico tinha que potencializar a informação textual”, conta Losnak. “Da mesma forma, o desejo era que o texto também potencializasse a arte gráfica. Aliás, esse termo, ‘potencialização’, era muito utilizado nos discursos do grupo”.

A Leitura sobre o poeta Tite de Lemos - Foto: Acervo Felipe Melhado
A Leitura sobre o poeta Tite de Lemos – Foto: Acervo Felipe Melhado

Enquanto a Hã Verde funcionava como uma via de ampla liberdade e pequeno alcance, dois daqueles garotos se embrenhariam novamente em uma empreitada de maior circulação. No ano de 1985, uma cena parecia se repetir na redação da Folha de Londrina: um jovem poeta se encontrava com um jovem artista gráfico para o empenho de criar algo à altura de suas aspirações. Rodrigo Garcia Lopes e Cesar Sumiya deixavam para montar a Página Leitura bem tarde, quando quase não havia mais ninguém na redação. “Quando sabíamos que uma página poderia dar algum tipo de problema, deixávamos para editar ela em cima da hora, no último momento”, conta Rodrigo. “Era um expediente para que não houvesse tempo sequer de descobrirem o que estavam imprimindo”.

Quando Rodrigo, com vinte anos de idade, foi contratado como repórter da Folha de Londrina, a Página Leitura já estava fora de circulação há mais de um ano. Pinduca havia abandonado a edição da página para se dedicar com mais afinco à poesia e, ao mesmo tempo, se preparar para sua mudança para São Paulo, onde trabalharia como jornalista na grande imprensa. Bira, por sua vez, estava concentrado em investigar técnicas como cerâmica, gravura, e também no trabalho com a branco&preto, revista mais comercial na qual ele tinha espaço para realizar experimentos visuais.

Assim que surgiu a oportunidade de atuar como repórter na Folha, Rodrigo não pensou duas vezes: propôs ao dono do jornal a retomada da Leitura. Ele editaria a página seguindo o mesmo esquema da época de Pinduca, sem ganhar nada por isso e com a ajuda de um artista gráfico voluntário. Convidar Cesar Sumiya para a empreitada foi quase natural. Na época, os dois eram parceiros na Hã Verde e estavam juntos em uma intensa busca estética, ocupados em explorar a relação texto-imagem das maneiras mais inusitadas possíveis, experimentando soluções pouco convencionais. “A gente queria fazer uma página esteticamente bonita, mas fora dos padrões, para romper com a diagramação oficial do jornal. Uma página de criatividade”, lembra Rodrigo. “E a gente fez uns absurdos”.

A primeira vez que o absurdo ganhou as páginas da Folha de Londrina foi em agosto de 1985. Sumiya e Rodrigo desenvolveram um manifesto poético-visual que deixava claro a que os dois tinham vindo. O relançamento da Leitura era uma colagem de imagens e citações textuais que convidavam a uma apreciação não-linear, desierarquizada, confundindo os leitores incautos da Folha. No alto da página, os clássicos ideogramas chineses acompanhavam sua tradução: “Renovar, dia a dia, renovar”. Logo abaixo, distribuíam-se sem grid, ordem ou pudor, citações de Wallace Stevens, Leminski, Thelonious Monk, John Cage, Ana Cristina César, Augusto de Campos, reproduções de Kandinsky, um grande olho reticulado, fotografias noturnas, a imagem de um beijo lésbico entre duas punks e retratos de figuras como Arrigo Barnabé e Torquato Neto.

Ao centro da página, em um box em formato de T, Rodrigo dispunha o primeiro editorial da página: “LEITURA, um laboratório de textos tentando sintonizar-se com a melhor prosa & poesia já produzida. De um poema em hieróglifo a haikais futuristas em Blade Runner. Poesia medieval e prosa punk, aqui e agora (…) Destruir a linguagem ou penetrar na vida. Ouvir todos os sons, sentir todos os céus, viver todos os sóis. O critério mais verdadeiro continua sendo o tesão. De criar. De mexer. De confundir. Sem ficar procurando respostas mas olhando e sacando esse fliperama caótico que chamamos VIDA”.

Equacionando essa atitude meio punk com erudição literária e faiscantes experimentações visuais, a Página Leitura de Rodrigo e Sumiya de fato publicaria uma heterogeneidade de autores. “Em uma página se podia encontrar poesia americana pós-moderna, na outra, Sam Shepard”, exemplifica Rodrigo. “Depois, poesia trovadoresca medieval e, no outro domingo, um beatnik como Carl Solomon. E cada uma das páginas tinha um layout, um design adequado segundo a sua linguagem”. Sem um projeto gráfico pré-definido para a página, Sumiya tinha ampla liberdade de experimentação visual. Suas criações interagiam com os textos escolhidos por Rodrigo raramente para ilustrá-los, mas geralmente para realçar algumas de suas nuances ou reorientar seus significados.

Para a Leitura que publicou os poemas meio kafkianos do carioca Tite de Lemos, por exemplo, Sumiya criou uma arte sequencial na qual a obra Filho do Homem, de Magritte, parecia deslizar para dentro de uma televisão. Na página dedicada ao amigo Ademir Assunção, Sumiya diagramou os poemas sobre suportes como vidros de perfume, xícaras de café e folhas cuspidas de máquinas de fax, sugerindo uma visualidade kitsch aos textos pop e ágeis de Pinduca. Já na Leitura em que foi publicado Carl Solomon, a solução encontrada por ele foi diagramar aqueles textos soturnos e áridos ao redor da fotografia de uma borboleta negra encarando sua sombra.

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A Página Leitura dedicada a Ademir Assunção, com edição de Rodrigo e design de Sumiya - Foto: Acervo Felipe Melhado
A Página Leitura dedicada a Ademir Assunção, com edição de Rodrigo e design de Sumiya – Foto: Acervo Felipe Melhado

“As páginas eram visualmente ousadas e no conteúdo tínhamos a preocupação de jogar na roda, de apresentar poetas brasileiros ou então estrangeiros pouco lidos no país”, conta Rodrigo. “Nossa intenção era de provocar um impacto a cada domingo”. A edição sofisticada e o visual meio desconcertante equilibrados por Rodrigo e Sumiya na Leitura impressionaria os leitores, mas não teria longevidade. Na primeira semana de novembro de 1985, Rodrigo foi chamado na sala de seu editor e recebeu a notícia: metade da Página Leitura havia sido vendida para anunciantes. Ele e Sumiya teriam que se contentar, agora, apenas com a metade superior da página. “Argumentei que a redução iria acabar com a proposta da Leitura, mas eles diziam que era aquilo ou nada”, lembra Rodrigo. “Fiquei realmente desapontado, furioso”.

Para a primeira edição reduzida da Página Leitura, ele e Sumiya prepararam uma publicação irônica, que zombava da situação. Em meia página, montaram um layout aludindo a uma página inteira. Nela, publicaram um trecho de Alice no País das Maravilhas em um corpo quase ilegível, que obrigava o leitor a um grande esforço. No trecho em questão, Alice toma um chá com a Lebre, o Chapeleiro e o Leirão e, em seguida, morde um cogumelo que a faz encolher. Para arrematar, no final desta meia Página Leitura o leitor era convidado a recortar um cupom no qual se lia o seguinte: “Perdoem-nos. Por motivo de força maior a Leitura desse domingo teve de ser reduzida de modo que ocupe apenas a metade de seu anúncio preferido… Entretanto, se você apreciou Lewis Carrol mas não sentiu-se estimulado ocularmente a prosseguir a leitura, remita-nos hoje mesmo esse cupão que, prazerosamente, enviaremos a seu domicílio (e livre de despesas) a ampliação”.

Quando a Leitura foi obrigada a ocupar meia página - Foto: Acervo Felipe Melhado
Quando a Leitura foi obrigada a ocupar meia página – Foto: Acervo Felipe Melhado

“Foi uma coisa realmente maluca, uma provocação”, conta Rodrigo Garcia Lopes. E a ironia surtiu seus efeitos. Os editores da Folha não podiam tolerar que um de seus funcionários usasse o próprio jornal para criticar uma decisão comercial tomada pela direção. Por isso, ele e Sumiya foram avisados: no próximo domingo seria veiculada a última Página Leitura. “Na época eu era jovem, talvez um pouco inconsequente, mas defendia o que eu acreditava e apostava no projeto”, se recorda. “Nessa situação eu acabei tomando algumas atitudes um pouco radicais”.

A última Página Leitura, de 11 de novembro de 1985, sairia com um fundo preto e com os textos em negativo. Nela constavam excertos de Roberto Piva, Charles Baudelaire, Lawrence Ferlinghetti e Vielimir Khlébnikov – todos eles criticando com sarcasmo e escárnio a mediocridade humana, a falta de criatividade e a natureza venal e grotesca da imprensa. Sob o título “Editorial”, constava ainda a fotografia de um dobberman raivoso escancarando sua arcada: o recado final havia sido dado, e a Página Leitura inventada por Sumiya e Rodrigo – visceral, fugaz e intensa – desapareceria dos domingos da Folha de Londrina.

“A última edição da Página Leitura" - Foto: Acervo Felipe Melhado
“A última edição da Página Leitura” – Foto: Acervo Felipe Melhado

Essa situação durou até a fatídica edição de agosto daquele ano. O número 26 do Nicolau marcaria o fim da primeira fase do jornal. Para a edição seguinte, a Secretaria de Cultura do Paraná escolheu e impôs à publicação um conselho editorial. Em resposta, a maior parte da redação pediu demissão, e Rodrigo saiu do Nicolau nessa leva. Mas apenas para se ter uma ideia da presença de sua geração nas páginas do jornal, essa mesma edição 26 traria, além de traduções de Rodrigo para poemas de Gary Snyder, uma prosa poética concebida por Marcos Losnak e um texto de Cesar Sumiya introduzindo imagens de Haruo Ohara, genial fotógrafo nipo-londrinense.

Por um bom tempo, o Nicolau foi uma publicação interessante para os londrinenses, servindo principalmente para divulgar seus trabalhos a um público mais amplo e colocá-los em contato com artistas de fora da cidade. No entanto, o jornal curitibano estava longe de ser suficiente para escoar as ambições criativas de muitos deles. Se isso era pouco sentido entre os rapazes ligados à literatura, devia ser uma verdade óbvia para os artistas gráficos. Nicolau tinha boa curadoria, conteúdos instigantes e era um grande canal, principalmente, para se ler boa literatura. Mas seu projeto gráfico era demasiado sóbrio em comparação ao que os garotos vinham desenvolvendo em Londrina na década de 1980. Provavelmente havia entre eles a sensação um tanto nítida de que poderiam realizar algo bem mais vigoroso em termos estéticos do que o Nicolau.

Entretanto, a Hã Verde, que a princípio já seria uma plataforma para veicular esse desejo, se encontrava extenuada naquele final da década de 1980. O grupo não conseguiu se organizar para levá-la adiante, e o último número não saiu da fase de projeto. “A gente conversava muito, discutia muito, todos liam demais, e estávamos em um período muito criativo. Só que tinha um problema”, lembra Marcos Losnak. “Era muita viagem. Na Hã Verde, a gente viajava em cima de uma mesma página sete dias. Loucos. E pra executar aquilo? Ninguém fazia”. Na opinião de Losnak, a vontade de viver tudo e com o máximo de intensidade possível muitas vezes deixava pouco espaço para o trabalho braçal, necessário para materializar os projetos. “Era difícil, principalmente nessa época. Beber o dia inteiro, fumar um monte, usar drogas, viajar… O barato era ter ideias, não exatamente concretizar as ideias”.

Nesse ambiente meio tumultuado e dispersivo, Losnak vislumbrava a necessidade de criar uma nova publicação. Algo com fôlego novo, que empolgasse seus pares novamente e com o qual ele pudesse experimentar a si próprio como artista gráfico. Maurício Arruda Mendonça lembra que, certo dia nessa época, Losnak o convidou para bater um papo em sua casa. “Cheguei na casa dele, conversamos, e a certa altura eu mesmo disse que estava querendo fazer uma revista”, conta Maurício. “Foi aí que ele me contou que estava pensando exatamente nisso, e a coisa virou”.

A nova revista deveria retomar a proposta de experimentar as artes gráficas em intenso diálogo com textos literários e ensaios. Naquele período, Losnak estava muito interessado no I-Ching, o que o ajudou a tomar uma série de decisões sobre a nova empreitada. “Eu tava pirado nisso. Construí as varetas e consultava o I-Ching a todo momento”, conta. “Para decidir o nome da revista, por exemplo, fiz a pergunta e joguei as varetas: deu K’AN. Estava escolhido. E grande parte das decisões tomadas em relação ao conteúdo não foram minhas: foram do I-Ching”.

A capa da K'AN #1 = Foto: Acervo
A capa da K’AN #1 = Foto: Acervo

A K’AN – que no I-Ching representa o hexagrama “O Abismal” – seria viabilizada financeiramente após uma parceria com a UEL, que resolveu bancar a revista. A edição #1 foi lançada em outubro de 1988. No expediente, Losnak aparecia como responsável pela “edição e visual”, Maurício figurava na condição de “participante na edição”, e um outro amigo do grupo, Marcelo Villas Boas, conhecido como Locaço, era creditado como “produtor executivo”. A revista apresentaria Sylvia Plath traduzida por Rodrigo e Maurício, textos de William Burroughs e Buckminster Fuller, um ensaio de filosofia da linguagem escrito por Ivan Santo Barbosa, uma parábola do mestre zen Dogen, um poema de Ademir Assunção e outro do próprio Marcos Losnak – T’ai Yin, que fazia referência ao I-Ching.

Impressa em offset P&B, num formato 22×27 cm, com 20 páginas, a K’AN revelou definitivamente Marcos Losnak como artista gráfico. Para Maurício, a revista serviu, entre outras coisas, justamente para dar vazão à verve visual de seu amigo: “Ele estava desenvolvendo uma linguagem muito pessoal e bela”, conta. De fato, a concepção visual da K’AN tinha algo de realmente original. No primeiro número Losnak alternou grandes áreas de preto e branco chapado com áreas reticuladas. Utilizou recortes de fotografias e ilustrações para compor o layout da maior parte das páginas. Experimentou diversas soluções tipográficas (na época, um de seus passatempos preferidos era sair caçando tipologias nos cartazes fixados nas bancas de jornais da cidade). Ao mesmo tempo em que fotocompunha com recursos diversos, Losnak conseguia harmonizá-los em um resultado sereno, quase oriental, mas que ainda assim guardava algo de primal e denso. Essa temperança acabou por produzir uma estética singular: uma espécie de zen noturno, algo como uma iluminação lunar cruzada com uma linguagem garageira, pós-punk, oitentista.

Outra sacada de Losnak na K’AN foi a aplicação de um pensamento gráfico sequencial. Em alguns momentos ele solucionava as páginas explorando justamente a sua sucessão. Títulos e imagens iam de uma página a outra, estabelecendo uma continuidade e sugerindo uma narrativa. Esse expediente se tornaria uma marca da arte gráfica de Losnak. É o que ele, hoje em dia, chama de “edição sequencial gráfica” – um tripé conceitual e procedimental que fundamenta seu trabalho como editor e designer.

Um exemplo da edição sequencial desenvolvida por Marcos Losnak na K'AN #1 - Foto: Acervo Felipe Melhado
Um exemplo da edição sequencial desenvolvida por Marcos Losnak na K’AN #1 – Foto: Acervo Felipe Melhado

Na K’AN número dois, publicada no “outono de 1989”,                esse design sequencial seria novamente explorado. Inclusive na capa, que trazia um oroboros cujo corpo se estendia até a contracapa. A ilustração da cobra que abocanhava o próprio rabo era de Eduardo Tadeu, quadrinista e artista plástico de Londrina que também publicaria uma HQ nesta edição da revista. A K’AN #2 saiu com o mesmo formato e impressão, mas um pouco mais robusta, com 28 páginas. A arte gráfica, dessa vez, contava com mais preto chapado e uso apenas ocasional de retículas e áreas brancas.

A revista tinha bastante conteúdo: traduções de Maurício Arruda Mendonça para haikais de Shinshiti Minowa, poeta japonês radicado em Londrina, uma fábula de Edgar Allan Poe traduzida por Benício de Almeida Mendonça (o pai de Maurício, aficionado por literatura de língua inglesa), uma tradução de e. e. cummings feita por Rodrigo Garcia Lopes, um poema do próprio Rodrigo, um texto místico-filosófico sobre linguagem assinado por Losnak e um pequeno ensaio sobre zen e linguagem de autoria de R. H. Blyth. Além disso, em um dos espelhos da K’AN, Maurício publicaria poemas aforismáticos (adivinhem: versando sobre linguagem) “potencializados” com arte gráfica de Cesar Sumiya.

“O projeto editorial da K’AN tinha essa proposta de incluir textos poéticos, traduções de poesia e também ensaios que não tivessem formalismo acadêmico”, lembra Maurício.  “Mas devo dizer que era diversão em primeiro lugar, uma diversão comprometida com a estética e movida pela vontade de estar juntos, fazendo arte”, complementa. Para Marcos Losnak, a produção da K’AN era uma “brincadeira levada a sério”: “Era um aprendizado para nós”, lembra. “Mas existia essa vontade de que quem a lesse também aprendesse algo. Na época, era foda encontrar coisas legais, então toda a informação que a gente tinha, a gente passava pra frente. E para mim o projeto editorial da K’AN tinha a ver com isso, apresentar um repertório para as pessoas. Era algo que já fazíamos naturalmente: na época, a gente compartilhava informações até mesmo com gente que não gostávamos”.

A capa e a contracapa da K'AN #2 - Foto: Acervo
A contracapa e capa (Respectivamente) da K’AN #2 – Foto: Acervo

Na segunda K’AN, o conteúdo se tornava mais robusto, a curadoria mais bem definida e Losnak também se aperfeiçoava na criação visual. Alguns erros gráficos cometidos na primeira edição foram superados, e ele também passou a entender a relevância de contar com o trabalho de outros artistas da cidade para compor a revista, como Eduardo Tadeu e Cesar Sumiya. Esses pequenos amadurecimentos encaminhavam o pensamento para a próxima edição. Para a número três, uma novidade empolgou o grupo. Ademir Assunção, já morando em São Paulo, tinha mostrado a K’AN para os editores da Brasiliense – a casa, que nos 80’s tinha publicado livros essenciais para a formação de muitos dos garotos, havia adorado a revista e se oferecido para distribuir a próxima edição.

Mas assim que Losnak e Maurício começaram a pensar no conteúdo da K’AN #3, uma notícia consternou a todos: em junho de 1989, aos 44 anos, morria Paulo Leminski. Nessa época Leminski era um grande interlocutor dos poetas londrinenses, mantendo uma frequente amizade e colaboração com o grupo que desenvolvia as publicações. A influência dele sobre essa geração era imensa: o gosto pelas questões semióticas, pela cultura e poesia japonesas, pelos poetas beats e a pela verve concreta/visual – todas essas e outras inclinações deviam muito ao contato com o pensamento, a obra e a pessoa de Leminski. Marcos Losnak e Maurício não hesitaram: a terceira K’AN seria dedicada ao poeta.

SIL-ÊN-CIO. Essas sílabas se desmembrariam entre a capa, a folha de rosto e a contracapa da K’AN número três. Os experimentos sequenciais continuavam no miolo. Folheando as primeiras páginas, o leitor acompanhava, sob um fundo cinza, uma flecha em pleno vôo (ilustrada por Eduardo Tadeu) descrevendo sua trajetória sobre textos de Leminski, em sua maioria poemas inéditos até então. Finalmente, na página dez, a flecha colidia com outra e o fundo tornava-se negro, marcando graficamente o início do conteúdo regular da revista. O índice, na próxima página, foi desenvolvido por Sumiya: uma colagem de iconografias místicas, industriais e cartográficas que era continuada no espelho seguinte, revelando uma influência do pensamento sequencial proposto por Losnak.

A revista traria ainda um trecho de Fim de Partida, de Beckett, excertos do diário e do romance Panamérica, ambos de José Agrippino de Paula, um texto de Gertrude Stein, poemas de Arnaldo Antunes, Ademir Assunção, Rossana Guimarães e de Alice Ruiz (este com arte gráfica da londrinense Elisabete Yonomae), várias traduções de Rodrigo e Maurício para o poema Oh SLoW, de e. e. cummings, fotografias de Haruo Ohara e um ensaio de Cesar Sumiya sobre zen e morte. No último espelho, nas páginas 64 e 65, o leitor encontraria novamente a flecha do início da revista – dessa vez, sendo lançada do arco e acompanhada por uma máxima extraída do Catatau, de Leminski: “Quem vai embora não embolora”.

As páginas dedicadas a León Ferrari na K'AN #3 - Foto: Acervo Felipe Melhado
As páginas dedicadas a León Ferrari na K’AN #3 – Foto: Acervo Felipe Melhado

Mais do que uma perspectiva positiva a respeito da morte do poeta, a frase também era lapidar para a situação da própria K’AN. A número três seria a última edição da revista e marcaria, também, o final da jornada revisteira protagonizada por essa geração nos 80’s. Os projetos pessoais dos integrantes do grupo os conduziriam por experimentos diferentes, os encontros se tornariam mais difíceis e os interesses se espraiariam. Alguns resolveram se dedicar com mais empenho à carreira acadêmica, outros começaram a publicar seus livros autorais ou, então, foram tomados por atividades profissionais. “Foi cada um pra um lado, se encontrar com outras coisas. E alguns piraram, talvez pelo excesso de vida, pelo excesso de contato com drogas, esse tipo de experiência”, avalia Losnak. “Mas acho que é igual banda de rock. Não existe banda de rock com mais de dez anos. Só as falsas, não é?”.

Mas a potência daquele encontro entre arquitetos-gráficos e jornalistas-poetas deixaria marcas em todos. A vivência mobilizaria afetos de forma definitiva na vida de toda a geração. “O que nos motivava? Talvez as mesmas coisas que motivavam Jack Kerouac a escrever On the Road”, diz Ademir Assunção. “Nós estávamos loucos para falar, loucos para fazer, loucos para viver. Líamos muito, ouvíamos jazz, rock, assistíamos aos filmes da sessão da meia-noite no Cine Ouro Verde, líamos histórias em quadrinhos, bebíamos muito, nos divertíamos muito. Queríamos fazer nossas sínteses de tudo o que estávamos assimilando. Vendo tudo isso hoje, com uma distância de décadas, acho que queríamos criar as balizas de onde saltaríamos para o mundo, para a vida. O que somos hoje tem raízes naquele momento em Londrina”, conclui Pinduca, que hoje vive como poeta em São Paulo e é dono de um Jabuti, conquistado em 2013.

Bira, que se tornou professor de artes visuais na UEL, também entende como fundamental a experiência com as publicações nos anos 1980: “Foi um grande tubo de ensaio. Foi ali que percebi, por exemplo, que o meu lance era uma arte reprodutível, meio distante das belas artes. São coisas que reverberam no meu pensamento e produção até hoje”. Para Losnak, que hoje é jornalista e tem sua própria editora, também chamada K’AN, a inquietude e a curiosidade da turma também foram elementos que não morreram no tempo: “A piração de todos era o novo. Não vou dizer vanguarda, mas tinha de ser uma coisa que a gente nunca tinha visto antes. A gente procurava a cabeça das coisas. E acho que a maioria de nós ainda tem essa fome de informação, essa tara pelo novo”.

A paixão por publicações descoberta na década de 1980 resultaria em outras revistas nas décadas seguintes. A partir de 1998, Ademir Assunção e Rodrigo Garcia Lopes trabalhariam como editores da Medusa, publicada em Curitiba. Ao lado do poeta Ricardo Corona e dos artistas visuais Eliana Borges e Key Imaguire Jr., eles desenvolveriam uma revista dedicada à literatura e às artes plásticas. Mais uma vez, o cruzamento entre o visual e o escrito dava o tom da publicação. Medusa ajudou a revelar diversos poetas novos, como Ricardo Aleixo e Elson Fróes, e publicou muitos dossiês sobre autores nacionais e internacionais, como Sebastião Nunes, Pedro Xisto, Roberto Piva, Jerome Rothemberg e Gary Snyder. Na seara das artes visuais, publicou realizadores bastante heterogêneos, como Márcia X, León Ferrari, Maria Ângela Biscaia, Miran entre outros. A publicação chegaria ao fim no ano 2000, em seu décimo número.

Na sequência, no ano de 2002, Ademir Assunção, Marcos Losnak e Rodrigo Garcia Lopes se reuniram para criar mais uma revista: a Coyote. Desde o primeiro número, a publicação se dedicou principalmente à poesia, mas também ao ensaio, à prosa, à fotografia e aos quadrinhos. O projeto gráfico da revista era assinado por Marcos Losnak e Joca Reiners Terron, então um jovem escritor e designer que, por ser um fã da revista K’AN, acabou conhecendo Losnak e se tornando um amigo próximo. Joca trabalhou na Coyote até o número 14 e ajudou Losnak a desenvolver uma visualidade que já estava, em sua essência, presente na revista K’AN. A Coyote, impressa em offset P&B, também trazia grandes áreas de preto e branco chapado. Os títulos compostos em corpo grande se tornaram uma marca da revista, e a editoração sequencial foi aplicada em inúmeras ocasiões. Na Coyote, Losnak chegava a desenvolver em conjunto, de forma sequencial, até três espelhos. Mas ao contrário do que ocorria nas experiências oitentistas, a Coyote apresentava um projeto gráfico mais consolidado, soluções visuais mais recorrentes, convencionadas.

Algumas páginas iniciais da K'AN #3, com textos de Paulo Leminski até então inéditos - Foto: Acervo Felipe Melhado
Algumas páginas iniciais da K’AN #3, com textos de Paulo Leminski até então inéditos – Foto: Acervo Felipe Melhado

Com uma longevidade rara no universo das revistas de arte independentes, a publicação seria editada por doze anos ininterruptos. A periodicidade bimestral do início foi se perdendo com o tempo e, em 2014, a Coyote de número 26 encerraria o ciclo. Nos doze anos em que circulou, a revista publicou mais de trezentos autores, veiculou ensaios fotográficos de alta qualidade e realizou entrevistas memoráveis. Em seu conjunto, a curadoria da revista privilegiou escritores e artistas de linguagens pujantes, potentes, que experimentam formas e mensagens. Uma linhagem de criadores radicais que sempre cativou o grupo. “Acho que a Coyote representa o amadurecimento de todas nossas experiências dos anos 80”, conta Ademir Assunção. “Rodrigo, Losnak e eu já tínhamos mais estrada e queríamos retomar aquele mesmo espírito de radicalidade e inquietação”. Na opinião de Pinduca, a experiência mais madura da Coyote serviu para mostrar que o modo de viver, pensar e produzir criado por aquela turma dos anos 1980 continuava vivo. “Vejo com satisfação que muitos não mudaram nada”, ele diz. “Evoluíram, mas não mudaram. Continuam sendo os mesmos moleques atrevidos. Agora, com mais estrada”.

*Agradecimentos: a Pablo Blanco e Edson Vieira, pelas fotos da Página Leitura. À jornalista Bárbara Blanski, autora
de um TCC sobre a Página Leitura do qual me apropriei de alguns depoimentos.